Dirigentes associativos sublinham importância do conceito de reutilização para ultrapassar dificuldades

As famílias portuguesas vão gastar mais dinheiro este ano com o regresso às aulas, segundo um inquérito que aponta para uma despesa média de 528 euros entre livros e outros materiais para o dia a dia da escola.

A menos de um mês do início de mais um ano letivo, as famílias voltam a calcorrear livrarias e superfícies comerciais à procura das melhores campanhas e descontos de material escolar.

Apesar das promoções, a fatura vai voltar a subir este ano e quanto mais velhos são os alunos mais caros ficam os livros: no 1.º ciclo os manuais obrigatórios, sem cadernos de atividades, rondam os 25 euros, mas no secundário ultrapassam facilmente aos 200 euros.

As famílias estimam gastar 528 euros, mais 19 euros que no ano passado, segundo o “Estudo sobre as Intenções de Compra dos Portugueses no Regresso às Aulas 2015”, que realizou 600 entrevistas telefónicas em todo o país.

Além dos manuais, as compras vão recair essencialmente em vestuário e calçado (85%), despesas de educação (78%) e artigos de desporto (73%), segundo o estudo em que foram consideradas as respostas de 238 pessoas, porque eram quem tinha filhos em idade escolar ou em que o próprio estava a estudar.

“São valores exorbitantes que julgo que muitas das nossas famílias não têm capacidade de suportar”, referiu ao Sítio Igreja Açores o responsável pelo Serviço Diocesano de Apoio à Pastoral Escolar em São Miguel que é também docente e pai.

Para Bento Aguiar “é necessário reforçar os apoios da ação social escolar não só para aqueles que já estão escalonados mas alargando-os, também, aos filhos de uma classe média que perdeu poder de compra e que não consegue suportar sozinha tais despesas”. Uma situação que diz, “agravar-se sobremaneira quando se trata de agregados familiares com mais do que dois filhos em idade escolar”.

Bento Aguiar lembra, por outro lado, que “alguma coisa tem sido feita ao nível das escolas”, no sentido da criação de um banco de livros que permite a reutilização dos manuais por vários alunos em vários anos, mas isso, ainda assim “é insuficiente porque há as fichas e outros materiais de apoio que têm de ser adquiridos de novo”. Acresce, segundo o responsável, a necessidade de se “alargar o período de vida dos manuais sob pena de de dois em dois anos tudo mudar, com custos incomportáveis”.

“Julgo que reforçar as dotações da ação escolar é também uma forma de apoiar as famílias e considero que aqui os sucessivos governos têm falhado, porque têm aumentado os impostos e não têm reforçado os apoios sociais”, conclui Bento Aguiar.

Raúl Medeiros, presidente da União das Associações de Pais da Escola Roberto Ivens em Ponta Delgada e um dos principais dinamizadores do Encontro Anual das Associações de Pais e Encarregados de Educação dos Estabelecimentos de Ensino da ilha de São Miguel vai mais longe e diz que é preciso apostar numa “renovação de mentalidades”.

“Por um lado é preciso que os manuais tenham um  período de vida mais longo e por outro, as famílias têm de aprender a reutilizar. Querer dar o melhor aos nossos filhos não significa dar sempre novo. Há que fazer com que as coisas passem de irmãos para irmãos, de amigos para amigos ou até mesmo de colegas para colegas”, diz este dirigente associativo, também ele pai.

“Hoje felizmente demos um salto na reciclagem dos lixos; seria muito importante darmos um salto também na reutilização dos manuais e dos materiais escolares”, refere lembrando que nas escolas existem bancos de livros mas mesmo aqueles que estão fora dos escalões e têm dificuldades “sentem pruridos em recorrer aos bancos que depois acabam por enviar os livros para o estrangeiro”.

“Há um certo novo riquismo, que apesar das dificuldades com que nos deparamos hoje, ainda não conseguimos ultrapassar e a grande aposta deve ser nesta mudança de mentalidades valorizando socialmente a reutilização”, porque “é um dado adquirido que as famílias estão a passar dificuldades e muitas só conseguem fazer face às despesas canalizando, por exemplo, os subsídios de férias para esse fim”, diz Raúl Medeiros, lembrando que os desabafos que vai colhendo “sobretudo da classe média que está fora de qualquer apoio da ação social escolar é de que as despesas são insuportáveis”.

A forma que muitas famílias (51%) encontram para conseguir fazer face às despesas é repartindo as compras, comprando os manuais escolares num momento diferente do restante material.

Apesar da elevada fatura, a maioria dos inquiridos (94%) quer que os filhos tenham manuais novos mas já se começa a notar um aumento de pessoas que veem com bons olhos os livros em segunda mão: em relação ao ano passado, regista-se um aumento de 33% de pessoas que optam por manuais usados, alguns pedem emprestado a familiares ou amigos enquanto outros recorrem a “lojas” de segunda mão.

Na internet, existem sites de vendas e de trocas gratuita, mas também existem espaços físicos onde as famílias podem ir, tal como os apoiados pelo “Movimento pela Reutilização dos Livros Escolares”.

Este movimento divulga na sua página online – www.reutilizar.org – os cerca de 200 bancos de recolha e partilha gratuita de livros escolares em todo o país que já permitiu a milhares de famílias poupar na compra de material e que continuam a funcionar.

À Lusa, o fundador do movimento, Henrique Cunha, lamentou as contantes mudanças de metas curriculares e de manuais por parte das escolas que dificultam a sua reutilização, contrariando a legislação em vigor que estabelece um prazo de seis anos de vida para os livros.

O Movimento decidiu por isso lançar no início do verão uma campanha de recolha de reclamações e denúncias de casos em que os pais consideram que houve ou está a haver algum tipo de “obstáculos à reutilização dos manuais” que vão fazer chegar ao provedor da Justiça a 15 de setembro.

Outra das questões feitas aos inquiridos durante o mês de maio foi se pretendiam dar semanada aos filhos e quais os valores: em média, as famílias dão 20 euros para os filhos gastarem no período de aulas (mais três do que no ano passado), mas 31% dos inquiridos disse que o valor máximo da semanada seria de 10 euros, segundo o estudo realizado pelo Observador Cetelem.

CR/Lusa