Por Carmo Rodeia

Dizia muitas vezes aos meus alunos de Oficina de Jornalismo, na licenciatura de Comunicação Social e Cultura, da Universidade dos Açores, e continuo a dizer hoje, que um jornalista é um misto de sacerdote e de médico: deve saber ouvir e estar sempre disponível, de prevenção, para levar a noticia ao grande público.

O Pe António Rego, um exemplo e uma referência que nenhum jornalista, em especial os que tratam informação religiosa pode ignorar, numa conversa comigo aquando da celebração dos seus 50 anos de vida sacerdotal, dizia-me que “criar um programa de televisão é como fazer uma homilia: também se reza, também se prepara, também se estuda, também se proclama”.

Foi um pouco neste contexto que procurei transmitir e partilhar conhecimentos quando dei aulas no Seminário de Angra e tive o privilégio de ter como aluno o diácono Pedro Lima, que será ordenado sacerdote no próximo sábado, tornando-se o mais jovem sacerdote açoriano, e  que irá paroquiar na igreja da Conceição, em Angra do Heroísmo.

Reservado, o Pedro – penso que ninguém levará  a mal se neste texto ainda o tratar assim- é um daqueles jovens que nos marca pela sua discrição, acutilância e assertividade, atributos recheados de um sentido de humor fino e de uma inteligência acima da média. Não é o único com estas qualidades, nesta nova leva de ordenações que o Seminário vai ter nos próximos anos, mas é certamente um dos que mais condições tem para ser um bom pastor e um bom comunicador.

A entrevista que deu ao Sítio Igreja Açores aquando, da sua ordenação diaconal, de onde saíu o título deste entrelinhas, mostra bem a sua humildade e o seu carácter, evidenciando uma “inocência” que antes de mais é um caminho e uma decisão para a descoberta.

Nessa entrevista vemos um jovem determinado a percorrer um caminho, com o receio próprio da novidade e ciente de que a distração é o pecado dos pecados, porque quando nos distraímos não deixamos que as coisas aconteçam. O desencontro nasce da distracção, não ouvimos porque nos dispersamos, e desviamo-nos quando perdemos o sentido do essencial, do prioritário e ficamos adiados. E o Pedro, nessa entrevista, refere justamente isto quando não enjeita a extraordinária importância da oração na vida de um pastor.

A nossa Igreja tem muitas fraquezas, com certeza, mas tem algo de extraordinário que se expressa em tantos movimentos, nas suas comunidades dinâmicas e, sobretudo, através dos pastores que nos animam.

Nos últimos 20 ano foram ordenados 55 presbíteros na diocese de Angra. Uma fartura tendo em conta os números que grassam nas dioceses continentais. Há 4 anos que tenho o grato privilégio de trabalhar de perto com muitos desses pastores e com outros mais velhos, que apesar de viverem num território descontínuo e com enormes constrangimentos procuram abrir novos caminhos de pastoral, sempre em sintonia com a Igreja Universal, mas sem medo de arriscar e de trilhar novos rumos.

Ao Pedro e aos que se seguirem desejo que sejam capazes de prosseguir nesta senda. Afinal, insularidade não significa insulação e nos Açores, terra de águas profundas e de gente crente, a igreja sempre tem sabido liderar. Na cultura, na educação e na vida social esteve sempre na vanguarda. Este legado não pode ser enjeitado!

Será sempre necessário desbravar novos caminhos, métodos criativos e uma linguagem apropriada para levar o anúncio de Jesus Cristo ao mundo contemporâneo. Em nome da evangelização. O Pedro sabe-o porque teve bons pedagogos… agora é só por as mãos na massa.