Por Monsenhor António Manuel Saldanha

No alto da cidade da Horta situa-se a igreja e o que resta do seu convento, dedicados ao culto da Virgem Maria como Senhora do Monte Carmelo. É o único complexo arquitetónico erguido nos Açores pela Ordem dos Carmelitas da Antiga Observância e hoje é sede da sua Ordem Terceira e alberga o Museu de Arte Sacra.

Colocado numa situação geográfica privilegiada, o espaço conventual serviu de apoio por pouco mais de um século, aos freires carmelitas que regressavam ou iam a caminho do Brasil, então parte da Coroa de Portugal.

Como aconteceu com os franciscanos que fundaram um convento e igreja dedicados a Nossa Senhora do Rosário e construíram no seu anexo uma belíssima capela para os seus Terceiros, também na igreja do Carmo se patrocinou uma capela para os Terceiros Carmelitas. No primeiro caso as dimensões são relativamente modestas, mas o seu altar de estilo barroco Joaninho e o seu teto de madeira pintada em perspetiva, constituem uma verdadeira preciosidade artística, rara no Arquipélago e a gritar por restauro.  No segundo caso, embora mais pobre, são majestosas as suas dimensões e de estilo evocativamente rocaille o seu retábulo, ainda que não marmoreado nem pintado a ouro.

A existência das Capelas dos Terceiros na Horta testemunha a existência de um movimento religioso de cariz devocional que saiu dos muros dos seus conventos para se corporizar na sociedade civil de setecentos e oitocentos e que viria a alimentar espiritualmente praticamente todos os seus segmentos.

Com a supressão das Ordens Religiosas em Portugal, desapareceram na antiga vila da Horta as igrejas e respetivos conventos das concepcionistas  e das clarissas e caiu o silêncio sobre a Capela dos Terceiros Franciscanos.

O destino da Igreja do Carmo foi diferente. Predestinada para se converter em pedreira fácil para construção de outros edifícios, foi salva e entregue à Ordem Terceira do Carmo pela intervenção do Duque de Ávila e Bolama a pedido de seu pai, que era um terciário daquela Ordem. Esta medida não só salvou da destruição um dos mais belos espécimes arquitetónicos jamais construídos no Faial, como contribuiu para garantir a continuidade do culto público à Mãe de Jesus.

Praticamente desde os primórdios da fundação do convento do Carmo na antiga vila da Horta, senão antes, o culto popular à invocação da Senhora do Carmo, atravessou o canal que separa as ilhas do Faial e do Pico de tal modo que para os habitantes da ilha montanha se tornou tradição ir anualmente em peregrinação à igreja do Carmo.

Os registos da Ordem terceira do Carmo ainda na primeira metade do século passado estavam cheios com os nomes de bem cinco mil confrades e confreiras do Faial e do Pico, tornando-se assim e indiscutivelmente, um dos elos de ligação entre estas ilhas.

A maioria das igrejas paroquiais e capelas açorianas são dedicadas à Virgem Maria.  Longe de constituir uma espécie de “conflito de devoções”, tal facto não impediu que largas centenas de açorianos de gerações não muito distantes das atuais, continuando devotos das suas respetivas padroeiras e suas invocações, usassem o escapulário do Carmo e seguissem práticas devocionais a ele ligados. Para muitas famílias, o hábito dos terceiros carmelitas foi o sudário dos seus defuntos.

Séculos de ininterrupto culto mariano celebrado na igreja do Carmo parecem dar sinais de continuidade com a entrada anual de novos membros na Ordem Terceira do Carmo. Um rito que se repetiu uma vez mais no passado 16 de Julho, na presença de um significativo número de fiéis, autoridades públicas e destacamento da Guarda Nacional Republicana, de que é padroeira Nossa Senhora do Carmo.

As espiritualidades das Ordens Terceiras dos carmelitas e dos franciscanos, sempre que enraizadas no Evangelho e nos escritos de grandes místicos e Santos como Teresa de Ávila, João da Cruz e Francisco de Assis, continuarão a inspirar a práxis cristã. Por isso, a parcela da Igreja diocesana presente na Vigaria Episcopal do Ocidente pode ter nelas um importante núcleo de formação laical e um recurso para relançar as sementes do Evangelho em terrenos que já acusam a sua falta.

*Monsenhor António Manuel Saldanha é secretário na Congregação para as Causas dos Santos, no Vaticano e é colaborador do sitio Igreja Açores