Papa defende projeto de «novo humanismo» centrado na fé em Jesus Cristo

O Papa disse hoje em Florença que a reforma da Igreja é mais do que mudar “estruturas” e implica a mudança de uma atitude “defensiva”, centrada no passado.

“Diante dos males ou dos problemas da Igreja é inútil procurar soluções em conservadorismos ou fundamentalismos, na restauração de comportamentos e formas ultrapassadas que nem sequer culturalmente têm capacidade de ser significativas”, alertou, num longo discurso proferido perante os 2500 participantes no 5.º Congresso Nacional da Igreja Católica na Itália.

Na Catedral de Florença, Francisco sustentou que a missão dos católicos é “trabalhar para fazer deste mundo um lugar melhor”, inspirados numa “fé revolucionária”.

O Papa manifestou o seu apoio a uma Igreja “inquieta”, que consiga estar mais perto dos abandonados e de quem falha.

“Sonhai também vós com esta Igreja, acreditai nela, inovai com liberdade”, pediu.

A intervenção apontou como prioridades a “inclusão social dos pobres” e a “capacidade de diálogo para favorecer a amizade social”, em favor do “bem comum”.

“Sabemos que a melhor resposta à conflitualidade do ser humano do célebre ‘homo homini lupus’ [o homem é o lobo do homem] de Thomas Hobbes é o ‘Ecce homo’ de Jesus, que não recrimina, mas acolhe e salva”, observou o Papa.

Francisco retomou algumas passagens da sua exortação apostólica ‘Evangelii gaudium’ (A Alegria do Evangelho) e repetiu os apelos em favor de uma Igreja “acidentada, ferida e suja” que saia à rua.

A intervenção centrou-se na proposta do “humanismo cristão”, que afirma a “dignidade de todas as pessoas” como filhos de Deus, criando uma “fraternidade fundamental”.

Esse humanismo cristão ajuda a “compreender o trabalho, a viver na criação como casa comum, dá razões para a alegria e o bom humor, mesmo no meio de uma vida tantas vezes muito dura”.

“Apenas podemos falar de humanismo a partir da centralidade de Jesus, descobrindo nele os traços do autêntico rosto do homem”, precisou.

Nesse sentido, o Papa alertou para o risco de querer “domesticar” esse rosto, sem aceitar que Deus se “esvaziou”.

Proximidade das pessoas e oração são a chave para viver um humanismo cristão popular, humilde, generoso, alegre

“A humanidade do cristão está sempre em saída, não é narcisista, autorreferencial”, prosseguiu.

Francisco apresentou três palavras-chave – “humildade, desprendimento, alegria” – para a vida cristã, recusando qualquer obsessão com o “poder”, mesmo quando este pareça útil para a “imagem social da Igreja”.

O Papa disse depois que as comunidades católicas têm de superar várias tentações e falou particularmente de duas, depois de gracejar com a assembleia, explicando que não ia ser uma lista “longa”, como as 15 que apresentou à Cúria Romana (em dezembro de 2014).

A primeira é o “pelagianismo”, que leva a pôr toda a confiança “nas estruturas, nas organizações”, criando um estilo de “controlo, de dureza, de normatividade”.

Francisco referiu, a este respeito, que qualquer reforma da Igreja é “alheia” a esta tentação e que a doutrina cristã “não é um sistema fechado”.

“A doutrina cristã chama-se Jesus Cristo”, realçou.

A outra tentação denunciada pelo Papa é o “gnosticismo”, que separa o “raciocínio lógico, claro” da “ternura da carne do irmão”.

O discurso recorreu à figura de ‘don Camilo’, o pároco das histórias do autor italiano Giovannino Guareschila, provocando o riso da assembleia.

“Proximidade das pessoas e oração são a chave para viver um humanismo cristão popular, humilde, generoso, alegre”, precisou Francisco.

O encontro começou com o testemunho do luto de uma mulher, que se prepara para o Batismo depois de perder o seu pai, e de um casal de católicos cujas primeiras uniões foram declaradas nulas pela Igreja Católica, após processos canónicos de 8 anos, permitindo que celebrassem o sacramento do Matrimónio.

O Papa ouviu ainda a história do padre Bledar Xhuli, albanês que entrou na Itália em 1993, com 16 anos, de forma clandestina, e que passou vários meses a dormir na rua até ser ajudado por um pároco em Florença e converter-se ao catolicismo.

CR/Ecclesia