Pelo Pe. Júlio Rocha*

Bergoglio assomou à Loggia da Basílica de São Pedro e pediu, em primeiro lugar, que rezassem por ele, Bispo de Roma. Anunciou que se chamaria Francisco. Esses dois gestos simbólicos adivinhavam um pontificado novo, marcado pela opção preferencial pelos pobres e pela decisão corajosa da reformar a Igreja naquilo em que ela tinha que mudar, numa linha já iniciada – não nos esqueçamos – pelo Papa Bento XVI.

Francisco celebra hoje as bodas de ouro da sua ordenação sacerdotal, e este é um motivo mais que justo para nos alegrarmos com tanto tempo de dedicação ao Evangelho. Cinquenta anos de serviço a Jesus é obra, seja quem for que celebre essa data de dedicação e oferta.

Vindo dos confins do mundo para a centralidade europeia de Roma, Francisco haveria de marcar a Igreja de uma forma indelével.

O primeiro gesto foi a sua visita a Lampedusa, pequena ilha italiana ao largo da Tunísia, a primeira terra europeia a ser fustigada pelo fenómeno dos refugiados, em 2013. Pouca gente na ilha, que não era o que mais interessava. Interessava a simbologia do gesto: muito antes dos políticos e estadistas europeus se preocuparem com essa tragédia, já Francisco alertava para a catástrofe humanitária que era o Mediterrâneo se transformar no maior cemitério do mundo. Já é verdade.

Pouco tempo depois, Francisco visitava um estabelecimento de reclusão de menores para aí celebrar a missa de Quinta-feira Santa com eles. Entre os apóstolos do lava-pés encontravam-se duas meninas, uma delas muçulmana. O gesto incomodou muita gente. Mas quem seria o Papa Francisco se não incomodasse o que estava cómodo? Foi isso que ele fez em toda a sua vida. Foi por isso que foi eleito e não podia mudar de personalidade, até porque preferiu viver no convívio de Santa Marta, lado a lado com outros padres e bispos, do que habitar nos aposentos sumptuosos e assustadoramente solitários do Palácio Apostólico.

A simplicidade do Papa Francisco espantou o mundo, acostumado a pontificados mais lineares e em linha com protocolo papal. Queria um clero que “cheirasse a ovelha”. Mais uma vez muitos torceram o nariz a essa verdade profundamente evangélica. Ouvi, consternado, a crítica, espalhada em vários ambientes, de que tínhamos deixado de ouvir Mozart para escutar Quim Barreiros, a respeito da transição de Bento para Francisco. Nada mais injusto e mentiroso, como a realidade haveria de provar: o mundo calou-se e o mundo católico encolheu-se quando Francisco declarou que a Igreja sofria de quinze doenças, entre as quais o alzheimer espiritual e da esquizofrenia existencial. Pois: a simplicidade do Papa Francisco escondia uma profundidade espiritual e humana iniludível.

Francisco insiste que a Igreja é essencialmente missionária, hospital de campanha, que prefere sujar os pés na lama que o Homem pisa do que os manter limpos e puros como anjos e orgulhosos como demónios. A Igreja de Francisco deve ser o rosto da misericórdia num mundo que, essencialmente, é carente do Amor de Deus. A Igreja deixa de ser eurocêntrica. O mundo é a sua casa.

Não podemos esquecer a centralidade de Jesus na mensagem do Papa Francisco. Jesus é Tudo. Não podia deixar de ser. E é por isso que o Cristianismo é festa, alegria, como vem bem expresso nos documentos promulgados durante o seu ministério.

Rezemos pelo Papa Francisco, pela sua missão, o que quer dizer rezar pela Igreja. Não tenhamos medo, não inventemos desculpas para detestar o seu pontificado, porque quem detesta o pontificado de Francisco não tem o mesmo amor à Igreja e ao mundo que ele tem.

Agradecer a Francisco é estar reconhecido pelo mais belo que a História da Igreja tem.