Diretora do Serviço Diocesano da Pastoral social elogia nova encíclica do Papa Francisco que apelida de “desafiante no título e no conteúdo”

A nova encíclica do Papa Francisco, “Fratelli Tutti” é um texto “profícuo em ideias que podem ser “sementeiras” de novas acções e comportamentos dentro e fora da Igreja, com um “impacto na sociedade em geral” e por isso será “um documento básico para inspirar o trabalho de uma pastoral social assente na fraternidade aberta” afirma Piedade Lalanda.

Interpelada pelo Sítio Igreja Açores, a diretora do Serviço Diocesano da Pastoral Social, na diocese de Angra, destaca um texto que “nos leva a refletir as resistências que qualquer um de nós revela quando está diante dos outros, sobretudo quando são diferentes”.

“Ao defender a importância de uma fraternidade aberta, como amizade social, o Papa fala-nos de uma forma de vida com sabor a evangelho porque  ser cristão é ser aberto à tolerância, ao encontro com o outro e à rejeição de qualquer forma de domínio de uns em relação a outros sobretudo dos mais fortes em relação aos mais fracos” afirma a socióloga sublinhando que o conceito de fraternidade é apresentado nesta encíclica como “algo aberto e que liberta a sociedade de todo o desejo de domínio”.

“A fraternidade social, tal qual é apresentada, não é compatível com exercícios de poder económico ou outros que se apropriarem  do mundo sem ter atenção o outro” adianta Piedade Lalanda que destaca, ainda, o facto do Papa Francisco apresentar a partilha de recursos e o trabalho como fonte de rendimento e de dignidade da pessoa “que têm de ser atendidas e respeitadas”.

A 299º encíclica publicada por um Papa, a terceira deste pontificado após ‘A luz da fé, em 2013, e ‘Laudato si’, sobre a ecologia integral, em 2015, apresenta o pensamento social do Papa Francisco.   Este é, pelo menos o entendimento do padre José Júlio Rocha, teólogo moralista e professor de Doutrina Social da Igreja.

“Esta encíclica encaixa bem no caminho da Doutrina Social da Igreja, resume o pensamento social do Papa Francisco e vem num momento histórico”, afirma o teólogo.

O sacerdote, que é o assistente diocesano da Comissão Justiça e Paz, destaca  o facto do Papa Francisco ir beber a São Francisco de Assis; de o título ser em italiano, para uma melhor compreensão e simplicidade, e de dar seguimento e valor à fraternidade, único elemento dos estados modernos, pós revolução francesa, que nunca teve o devido enquadramento.

“Liberdade e igualdade sem fraternidade pode fazer-nos cair numa perversão, ou em várias perversões, como estamos a ver nos nossos tempos.  Sem fraternidade, isto é, sem que os homens se considerem irmãos, qualquer trilho pode ser um fracasso. E não deixa de ser interessante que ele convoque todas as religiões, para que tenham um papel fundamental na fraternidade e na construção da paz”, adianta o sacerdote em declarações ao Igreja Açores.

“O Papa refere várias vezes que a atual situação é uma situação de regressão da humanidade; nós não estamos a caminho da paz mas da guerra e é muito interessante que ele além de condenar a guerra também condena a pena de morte” que para a Igreja só pode ser “inadmissível”.

Por outro lado, sublinha o padre José Júlio Rocha, o Papa fala da pandemia e do medo instalado, o que “é muito atual e pertinente”. Aliás, a parábola do Bom Samaritano, que “ilumina toda a encíclica”, é outro dos factos sublinhados pelo sacerdote para destacar a atenção que o Papa dá aos migrantes e a critica que faz ao recrudescimento dos populismos que ganham posição nas sociedades por causa do aproveitamento que se faz dos mais pobres e dos mais desfavorecidos.

Esta é também a opinião do professor da Universidade dos Açores Tomás Dentinho.

“Este texto é muito interessante porque levanta as questões do seculo XXI e apresenta soluções” refere o economista que destaca a pandemia que é “o teste fundamental a este nosso sistema”.

“Nós ainda não estamos na crise económica que esta pandemia antecipa mas ela vai acontecer e não tenho dúvidas de que a resposta tem de estar assente no primado do amor, isto é, nós somos todos irmãos e o judeu que é salvo pelo samaritano, vai ser um episódio que vai acontecer muito mais rápida e naturalmente do que nós pensávamos”.

“É natural que alguma pobreza surja e muitas pessoas se sintam assaltadas e precisem de ajuda;  era algo que já supúnhamos mas que esta pandemia veio sublinhar de uma forma notável” salienta o professor da academia açoriana.

Tomaz Dentinho não esconde alguma perplexidade inicial ao ler o documento- “a introdução fez-me um bocadinho de medo pois a questão social foi posta antes da questão da produtividade e da criação”- mas depois “anda-se no texto e percebe-se que há problemas que merecem uma solução concreta e o Papa propõe essa solução a partir de uma ideia concreta de amor fraternal que e ao mesmo tempo um amor social”.

Por isso, conclui, “é muito interessante e serve para os cristãos refletirem e agirem, sobretudo” porque elenca temas importantes como as migrações, a integração, a economia, entre outros.

A encíclica “Fratelli Tutti” foi publicada no domingo passado e assinada no sábado diante do tumulo de São Francisco de Assis, o santo do amor fraterno entre todas as criaturas.