Pelo padre José Júlio Rocha

Fui avisado por um colega que ia passar pela RTP 1 um debate sobre o futuro da Igreja. Inserido no programa de Carlos Daniel “É ou não É?”, parece, dizia-me o colega, que o painel seria interessante.

Preparei-me. E, nesse processo de preparação para assistir ao programa, passaram pela minha moina várias temáticas razoavelmente candentes, até porque o título do programa seria “Que futuro para a Igreja?”

Passou-me pela cabeça que o tema dominante cairia sobre o Papa Francisco e o seu pontificado apaixonante e acidentado, a sua vontade de uma Igreja em saída, que sacudisse o pó dos incensos e da autorreferencialidade, um Igreja “hospital de campanha”, que vai ao encontro dos homens, sobretudo dos mais excluídos e periféricos.

Passou-me pela cabeça o papel da mulher numa Igreja profundamente masculinizada, para não dizer machista, onde as mulheres, que constituem dois terços dos católicos observantes, continuam a ter um papel dolorosamente secundário nos grandes momentos de decisão, mesmo com o trabalho do Papa Francisco, e sabendo que, em temas como este, para a Igreja se mexer um centímetro são necessários muitas quilotoneladas de energia e boa vontade.

Passou-me pela cabeça a questão do sínodo e da sinodalidade na Igreja, esforço conjunto, onde todos têm o seu lugar, uma vez que a questão sinodal tem a ver com o caminhar juntos: outra vez Francisco a tentar pôr em prática uma das maiores revoluções do último Concílio – se não a maior – que é considerar a Igreja não como sociedade hierárquica mas como Povo de Deus, onde os leigos têm um papel tão importante como os membros do clero.

Passou-me pela cabeça o tema do diálogo inter-religioso que, na Europa, assume contornos de urgência, com a temida vaga islâmica a entrar portas adentro e a necessidade de uma convivência pacífica com todos os crentes de boa vontade.

E o que é que eu vejo, logo como tema de entrada, “ex-abrupto”, e que comeu mais da metade do debate? A pedofilia. A Igreja e a pedofilia. A pedofilia na Igreja. Parece uma substância viscosa que se apegou ao corpo da Igreja e é já impossível, em ambientes mais laicos, pensar a Igreja sem olhar para essa mancha de sujidade que cobre, como pústulas, a sua credibilidade. Nos ambientes mais afastados, pensar em Igreja é ligá-la intrinsecamente a esse mal. Eis aonde nós chegámos.

Eu podia dizer que a pedofilia não é apanágio da Igreja, que é transversal e multifacetada. E podia dar como exemplo o caso de França, que fala em cerca de 200 a 300 mil crianças e adolescentes abusados nos últimos setenta anos por membros da Igreja, quando uma estimativa diz que, no mesmo período de tempo, mais de cinco milhões de crianças foram abusadas em França. Quem assume essa responsabilidade de resgatar e proteger as pessoas cujos traumas de infância as marcaram para sempre?

Eu podia acrescentar que a Igreja Católica, até há pouco tempo, foi a responsável pelo acolhimento e educação de cerca de 90% das crianças institucionalizadas em muitos países europeus, Portugal incluído. Numa análise fria e feia, a ocasião faz o ladrão… Infelizmente.

Eu podia fazer finca-pé no facto de uma estimativa dizer que a percentagem de membros do clero que praticou atos de pedofilia ou abuso de menores se situar nos 4%, o que, segundo alguns, não está muito longe da estimativa geral.

Em que é que isso diminui a responsabilidade da Igreja a respeito de tais crimes? Nem um centímetro. Bastava um caso… são milhões. Bastava um padre… são dezenas de milhares. E as crianças, sobretudo as institucionalizadas, o elo mais fraco da sociedade inteira, o que mais precisa ser protegido, educado, amado… é aí que se encontram os contornos mais escandalosos e inenarráveis.

Pedro Nobre, psicólogo interveniente no debate, disse uma coisa tremendamente veraz: o abuso de menores é também uma questão de poder.

Nas tentações do deserto, Jesus é levado pelo Diabo a um monte alto de onde se avistam todos os poderes da Terra. E o Diabo diz a Jesus que, se Este o adorar, Lhe dará todos os poderes da Terra, porque pertencem ao Demónio. O poder, quando não é serviço, é obra do Demo.

E o poder como “não-serviço” foi muitas vezes, demasiadas vezes praticado dentro da Igreja. Nem falo em poderes papais nem em estados pontifícios, nem em cruzadas ou inquisições, nem em bispos que eram – e alguns ainda querem ser – senhores feudais, nem em padres tiranetes. Falo no poder moral da Igreja, na sua voz sobre as consciências dos cristãos, na sua missão de colaborar na salvação de Cristo (“se fizeres o que te mandamos, estás sempre no bom caminho”). O abuso desse poder é fatal. E foi na base do abuso desse poder, um poder abusivamente hierárquico, ético, psicológico, secreto e silencioso, nessa áurea esfumada de cumplicidade e domínio, que se gerou o caldo para a impunidade do crime: o abusador sabe que não vai ser incriminado. Sabe que pode tudo. Sabe que o silêncio é ouro. Sabe que está a destruir uma vida. Numa estrutura fechada, está protegido.

Quando é que vamos aceitar, de uma vez por todas, que a autoridade moral da Igreja não é um poder mas um serviço? É preciso virar muita coisa de pernas para o ar… é necessária uma viragem que deverá custar os olhos da cara a muito boa gente.

Nos Evangelhos, encontramos um Jesus a insistir constantemente que veio para servir e não para ser servido, que quem se faz humilde será exaltado, que quem quer ser o primeiro deve ser o último ou quem quer ser o senhor deve ser servo, que devemos ser como crianças para herdar o Reino.

Reconheço que já é muito assim, que a Igreja, à imagem do coração do seu Fundador, no silêncio da sua ação, já é muito assim. É preciso que seja toda assim.

 

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.