Olhar o mundo a partir da periferia pode ser mais fiel ao evangelho: “Temos uma força que é o evangelho, mas dizemo-la em formas que perderam relevância cultural”

Padre José Frazão Correia, jesuíta, refletiu sobre o lugar do cristão na cidade de hoje, numa conferência organizada pelo ICC em Ponta Delgada

Foto: Igreja Açores/PG

O padre José Frazão Correia deixou esta noite o desafio a todos os cristãos de repensar o lugar do cristianismo numa sociedade marcada pela urbanidade, pela pluralidade e por profundas mudanças culturais, numa conferência promovida pelo ICC onde o sacerdote jesuíta falou de “perdas” e “de oportunidades para reencontrar o essencial”.

A conferência, promovida pelo Instituto Católico de Cultura, sobre o lugar do Cristão na cidade de hoje, assumiu-se mais como uma interpelação do que como uma exposição fechada, convidando à reflexão sobre o papel da Igreja no mundo contemporâneo.

Logo no início, o conferencista evocou uma ideia antiga, mas surpreendentemente atual: “Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes.” A partir desta afirmação, sublinhou que a fé cristã não se vive à margem da sociedade, mas dentro dela, partilhando os mesmos contextos culturais, sociais e humanos.

Para o jesuíta, a cidade, entendida não apenas como espaço físico, mas como metáfora da cultura contemporânea,  é hoje o lugar onde todos vivem, mesmo fora dos grandes centros urbanos.

“A cultura digital fez com que o mundo se tornasse essencialmente urbano”, afirmou, defendendo que os cristãos precisam reconciliar-se com essa realidade: “A cidade não nos é estranha, é a nossa cidade. A cultura não nos é estranha, é a nossa cultura.”

Um dos pontos centrais da intervenção foi a ideia de que o cristianismo vive atualmente um processo de deslocação do centro para a periferia. Durante séculos, a Igreja ocupou uma posição dominante na sociedade; hoje, encontra-se muitas vezes à margem. No entanto, esta mudança não deve ser vista apenas como perda: “O que nos custa do ponto de vista cultural não é necessariamente uma perda evangélica”, afirmou, sugerindo que este tempo pode ser uma oportunidade para redescobrir o essencial da mensagem cristã.

O padre José Frazão Correia alertou ainda para a necessidade de repensar as formas de comunicar o Evangelho. Segundo explicou, existe um desfasamento entre a “força” do Evangelho e as “formas” através das quais ele é transmitido: Temos uma força, que é o Evangelho, mas dizemo-la em formas que perderam relevância cultural.” Daí a urgência de simplificar a mensagem sem perder profundidade, identificando “o que é mais essencial, mais belo e mais necessário”.

Daqui resulta uma consequência preocupante: a perceção de irrelevância da fé. “A irrelevância cultural do Evangelho gera indiferença”, afirmou, alertando para o risco de a Igreja se fechar numa “bolha de autoproteção ou de lamento”.

Por isso, defendeu a necessidade de revisitar as formas, simplificar a proposta cristã e recentrá-la no essencial: “Precisamos de perguntar o que é mais belo, mais importante e mais necessário no Evangelho.”

Essa mudança de posição obriga a Igreja a redefinir-se, não apenas no discurso, mas sobretudo nas práticas: “Não é apenas uma questão de palavras, é uma questão de forma, de modo de fazer.”

Outro desafio destacado foi a relação com a sociedade plural. O conferencista questionou se as práticas da Igreja são compreendidas por quem está fora: Os outros que nos veem de fora, o que é que veem de nós? E aquilo que veem é aquilo que queremos mostrar?” Esta interrogação, disse, deve orientar a presença cristã no espaço público.

A resposta, defendeu, passa por uma Igreja “em saída”, próxima da vida concreta das pessoas, abandonando a ideia de que as pessoas virão naturalmente ao espaço eclesial. Num mundo plural, a presença cristã deve acontecer onde as pessoas vivem: nas relações, na cultura, na arte, nos desafios sociais, acrescentou.

O conferencista insistiu que o primeiro contacto com a realidade deve ser marcado pela empatia e não pelo julgamento: “O primeiro contacto não deve ser o do juízo, mas o do encontro.”

“Mais do que trazer a vida à Igreja, cabe-nos levar o Evangelho à vida”, disse.

O padre jesuíta insistiu também na importância de olhar para as periferias – sociais, económicas e existenciais – como lugar privilegiado da ação cristã. Temas como a habitação, as migrações ou as novas formas de relação foram apontados como desafios concretos onde a Igreja deve ter voz, especialmente junto dos mais vulneráveis.

Na reta final, deixou uma nota de esperança: apesar das dificuldades, o tempo atual é também promissor. “O exercício da perda pode ser necessário para recuperar a força do Evangelho”, afirmou, defendendo que a cidade, com toda a sua complexidade, pode tornar-se um espaço fecundo para viver e testemunhar a fé.

O padre José Frazão Correia criticou ainda uma certa linguagem cristã marcada pelo moralismo ou pela repetição de fórmulas vazias. Em contrapartida, propôs uma “gramática da abundância”, inspirada no Evangelho: uma linguagem aberta, generosa, capaz de atrair.

Mas alertou também para a necessidade de coerência: “Às vezes dizemos que o mundo está mal, mas nós também não estamos muito bem.” A credibilidade do testemunho cristão depende da qualidade das relações, da escuta, da misericórdia e da verdade vividas nas comunidades.

Na abertura da conferência, o diretor do ICC destacou o percurso da instituição ao longo dos seus 34 anos, sublinhando que mais do que um simples sentimento, existe uma preocupação constante em observar e compreender o mundo. Nesse esforço, reconheceu a importância da presença de filósofos e pensadores que contribuem para uma leitura mais profunda da realidade, ajudando a interpretar os desafios contemporâneos e a situar o ser humano no seu contexto global.

Ao abordar essa compreensão do mundo, o diretor, monsenhor José Constância, enfatizou o diálogo entre a leitura da realidade atual e a perspetiva cristã, onde o crente é simultaneamente cidadão do mundo. Destacou a centralidade das cidades – grandes e pequenas – como espaços onde se concentram os principais desafios sociais e culturais. Referiu ainda que a conferência integra um conjunto de iniciativas do Instituto, renovado na sua dinâmica e organização, sendo esta a primeira de várias sessões dedicadas a refletir sobre a relação entre o cristão, a “cidade de Deus” e os problemas concretos da vida urbana contemporânea.

A sessão terminou com um breve debate, onde participantes sublinharam a importância da escuta, da relação pessoal e da autenticidade no testemunho cristão, reforçando a ideia de que a fé se comunica acima de tudo através da vida.

Scroll to Top