Cónego Ricardo Henriques é ouvidor há cinco anos e, em entrevista ao Igreja Açores, destaca problemas e desafios da segunda ouvidoria mais populosa da diocese de Angra

O ouvidor de Angra considera que o principal desafio da ouvidoria do coração da diocese é fazer com que a igreja local se reaproxime dos jovens, sobretudo através das famílias mais novas, aproveitando as necessidades espirituais que revelam mas dentro do quadro da Igreja, evitando que procurem a satisfação destas necessidades espirituais noutros lugares.

“Há uma necessidade de haver uma aproximação grande às jovens famílias, para além das Equipas de Nossa Senhora, procurando desenvolver uma pastoral familiar praticamente inexistente, indo ao encontro das famílias e proporcionando-lhe uma oferta formativa e de proximidade”, refere o cónego Ricardo Henriques, ouvidor há cinco anos.

“A aproximação da Igreja a estas camadas jovens seria muito importante não em ordem a uma Igreja de cristandade mas para que pudéssemos ir mais longe, renovando e não tendo uma Igreja tão envelhecida”, acrescenta manifestando preocupação por alguns desvios.

“Há muita gente nova que procura uma espiritualidade fora da Igreja, em novas práticas orientais entre outras e, para mim, isto é uma preocupação que tem de ser vista e refletida em Igreja”, enfatiza, destacando, por outro lado, uma crescente procura da Igreja apenas para a celebração de ritos.

“O Cristianismo atualmente está a ser vivido em função de momentos e situações e parece que isso basta: morre uma pessoa e vai-se ao funeral, vai-se à missa de sétimo dia e depois no domingo seguinte já não se vai; vai-se ao batizado, vai-se ao casamento…Isto é, a religião parece que diz alguma coisa para determinados momentos mas não diz para os momentos todos, o que nos deve fazer refletir e encontrar estratégias de aproximação e formação” pois ser cristão “não é apenas frequentar a Eucaristia”, embora “já seja importante isso”.

A ouvidoria de Angra possui 20 comunidades- 19 paróquias e um curato- com realidades muito distintas. Dividida em quatro zonas pastorais, cada uma com um moderador e conselho pastoral, o que lhe dá “autonomia pastoral”, a ouvidoria de Angra padece dos males das grandes cidades, com realidades muito distintas, ditadas pela geografia e pelo modo de ser Igreja:  no coração da cidade e nos arredores uma maior indiferença; nas zonas mais afastadas e rurais, uma maior proximidade à vivência comunitária.

“Não é bom nem mau; é o que é” refere o ouvidor lembrando que “temos de tratar diferente o que é diferente”.

“As duas zonas dos extremos- leste e oeste- são eminentemente rurais, com uma proximidade maior, com maior envolvência nas decisões; depois há uma grande concentração de pessoas na zona urbana e sub-urbana onde não são tão comprometidas, estando mais alheadas, sobretudo nas zonas dormitório onde não há uma vivência em comunidade”, afirma.

“Na cidade há uma valorização do individual. O modo de interagir é comprometido,  mas com maior distanciamento e isso torna tudo diferente”, adianta.

Por outro lado, o cónego Ricardo Henriques, pároco in solidum da paróquia da Conceição, a maior de Angra, com o santuário diocesano e outros lugares de celebração do culto, destaca o envelhecimento dos leigos mais comprometidos na organização paroquial e também os efeitos da pandemia como factores que “fragilizam” hoje uma vivência plena da vida cristã.

A entrevista ao cónego Ricardo Henriques, que se insere na radiografia que o Igreja Açores está a fazer a todas as ouvidorias neste tempo de sede vacante,  pode ser ouvida na integra no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores, este domingo, depois do meio-dia.

“Este tempo, na verdade, é um tempo especial que ao ser um período de sede vacante continua a gerar alguma expectativa. A igreja continua a fazer o seu caminho mesmo sem ter o bispo porque tem todos os outros elementos que são a fé, Jesus Cristo, o Espirito , a palavra de Deus,  e a Eucaristia mas, naturalmente o bispo, por ligação às origens, ao colégio apostólico e enquanto elemento que faz parte do colégio episcopal, que nos dá a garantia da sucessão, da tradição e da autoridade apostólica, é alguém que vai aglutinar à sua volta as vontades e o compromisso que existem de levar por diante a missão da Igreja, que é dar continuidade à missão de Jesus Cristo”, diz o sacerdote.

“Naturalmente que faz falta. Não podemos ser minimalistas… Mas julgo, por outro lado, que também não podemos colocar todas as expectativas no bispo, até porque como dizia um professor do Seminário, a diocese de Angra nunca foi muito acolhedora dos seus bispos. Há um fulgor inicial, mas depois parece que tudo se esvai. Concluindo continuamos a trabalhar mas falta algo e isso nota-se”, conclui.

 

A Ouvidoria

A ouvidoria de Angra tem cerca de  32 mil habitantes, segundo o ultimo census e integra a cidade património de Angra do Heroísmo, a primeira cidade do arquipélago elevada em 1534, ano da bula de criação da diocese de Angra, separando-a do Funchal. A ouvidoria tem  quatro zonas pastorais: no total são 20 comunidades- 19 paróquias e um curato- , servidas por 29 padres e três diáconos.

Em Angra existe  o Seminário Maior, uma Santa Casa da Misericórdia , duas obras sociais- a Cozinha Económica Angrense e a Irmandade de Nossa Senhora do Livramento- , dois santuários diocesanos- Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora dos Milagres (Serreta)-, quatro institutos religiosos e 11 centros sociais e paroquiais.

Em Angra estão sediados alguns serviços diocesanos como o da Catequese, Evangelização e Missão; o da Pastoral da Mobilidade Humana e a Comissão de Música Sacra; a Cúria diocesana, com todos os seus serviços bem como os secretariados diocesanos de alguns movimentos de apostolado como o da Mensagem de Fátima, o dos Cursilhos de Cristandade.