Vigário Episcopal para a Formação apela a uma leitura encarnada do Evangelho

Começaram esta segunda feira, no Seminário Episcopal de Angra as jornadas de lançamento do novo ano pastoral, com dois encontros diários- durante o dia para sacerdotes e à noite para leigos- orientados pelo bispo de Angra, D. João Lavrador e pelo Vigário Episcopal para a Formação, Cónego Ângelo Valadão, nas três vigararias dos Açores.

Tomando como ponto de partida a constituição apostólica Gaudium et Spes, o responsável pela formação na diocese procurou fazer uma abordagem teológica à história a partir dos sinais dos tempos desde o Concilio Vaticano II até aos nossos dias.

O cónego Ângelo Valadão, que falou primeiro aos sacerdotes da Vigararia do centro, embora só tenha participado o clero da ilha Terceira e depois aos leigos, no Seminário de Angra, esta segunda-feira, começou por balizar a sua análise lembrando que a diocese, na caminhada sinodal que agora inicia, não pode ficar apenas por uma análise social, cultural e eclesial dos Açores.

“Precisamos de uma chave teológica para ler e interpretar os sinais dos tempos à luz do Evangelho”, afirmou sublinhando que são essas ferramentas que permitem “agir pastoralmente em ordem a uma resposta evangelizadora da nossa Igreja local às questões que a sociedade, a cultura e a própria igreja nos colocam”, cumprindo, de resto, uma das premissas levantadas pelo Papa Paulo VI que defendeu e estimulou um diálogo constante entre a Igreja e o mundo. Por isso, o sacerdote falou do contexto da elaboração da Gaudium et Spes, da sua estrutura, dividida em duas partes, com 93 números, e das temáticas sobre as quais versa, seja na sua vertente mais antropológica seja na vertente pastoral e da forma como ela desafia os cristãos a agir no mundo concreto.

O cónego Ângelo Valadão, que no ano pastoral cessante preparou uma série de intervenções e textos sobre outro documento saído do Concilio- a Lumen Gentium-, com os quais refletiu com leigos e sacerdotes nas escolas de formação cristã nas diferentes ouvidorias, sublinhou a importância de neste diálogo com o mundo, haver uma interpretação dos vários sinais por parte da igreja naquilo que designou como “Teologia da História”, isto é, a possibilidade “ de cada crente a partir de uma análise de vida, da história, poder confrontar-se com o Evangelho para encontrar aí o sentido para a sua vida”.

“A revelação divina realiza-se progressivamente na história, dando-nos a conhecer o desígnio de Deus de salvar o homem todo e todos os homens”, enfatizou.

“Toda a doutrina da Gaudium Et Spes, ao partir dos sinais dos tempos, é uma Teologia da História, dado que tem subjacente uma Teologia das realidades terrestres salvas ou recapituladas em Cristo e por Cristo”, esclareceu ainda, lembrando que a Igreja tem de estar desperta para a compreensão das diferentes realidades, interpretando cada momento à luz do Evangelho, o que “nem sempre é tarefa fácil” mas, ainda assim, deve merecer a atenção e o esforço da Igreja. De resto, lembrou, este desafio pastoral corresponde à missão profética da Igreja que deve olhar para a realidade-“mesmo nas questões mais graves”- com “confiança e positividade”.

Já o bispo de Angra, que também se dirigiu ao clero, aos leigos e aos religiosos presentes, socorreu-se das orientações diocesanas de pastoral para refletir sobre a realidade social, cultural e eclesial dos Açores, que neste momento vive uma situação de alguma intranquilidade no que respeita a questões sociais, nomeadamente o desemprego, a falta de oportunidades, sobretudo para os jovens.

D. João Lavrador traçou uma primeira radiografia do arquipélago, a partir da evolução dos dados estatisticos regionais, no período entre 2001 e 2017, citando vários indicadores de pobreza, de saúde, de escolaridade, emprego, habitação, preservação do património, níveis culturais, sublinhando o caminho que a região já percorreu mas lembrando que em quase todos os indicadores, os Açores continuam abaixo das médias nacionais e europeias, “o que exige um esforço de atenção por parte de toda a comunidade cristã”.

A partir da realidade da igreja insular, que está na sociedade açoriana há 485 anos, “é preciso discernir que apelos e clamores se lançam à Igreja pelos Açores de hoje”.

“O presente e o futuro da nossa igreja estão na presença da mesma nas realidades de vida do povo açoriano” e esta visibilidade concretiza-se “nas famílias, nas fábricas, nas empresas, nos sindicatos, nas associações políticas, de voluntariado, etc”, afirmou.

“Não obstante todas estas formas de presença no mundo dos Açores e dada a complexidade dos problemas sociais e culturais e de um certo cansaço atual há por vezes uma fuga aos problemas reais, a tomada de posição e a uma ação individual e comunitária de compromisso transformador ” que urge ultrapassar.

Por isso, o prelado voltou a desafiar os presentes a criar condições que favoreçam “um diálogo fecundo” com todos os sectores da sociedade, a começar pelo meio académico, de forma a encontrarem as formas mais adequadas de responder aos desafios do mundo insular atual.

A diocese entra este ano naquilo a que designou de “caminhada sinodal”, procurando estar cada vez mais presente na vida dos açorianos, numa perspetiva missionária, indo ao encontro das populações e dos seus problemas.

Esta terça-feira o encontro, nos mesmos moldes, realiza-se na Horta e quinta-feira, dia 12, em Ponta Delgada.