Pelo padre José Júlio Rocha

Já ando há meses a matutar se hei de escrever ou não a segunda parte da história do meu gato, o Júlio II, mas vem-me sempre aquela sensação de me acharem um pilhérias que se emociona por causa de um animal de estimação, quando há tantas crianças a sofrer, etc. Mesmo assim, arrisco-me aos risos e complacências.

Os últimos dias do Júlio II foram de um sofrimento crescente, apesar das várias vezes que o levei ao veterinário, na tentativa de travar ao máximo o galope da sua doença. Apesar de o pelo disfarçar um pouco, estava a ficar nos ossos, sentia-se-lhe as costelas, as vértebras, as patas, antes largas e patudas, agora magras e espigadas.

Ao longo desses onze anos de companheirismo, aprendemos a viver um com o outro, o que para mim foi fácil, já que o Júlio II era um gato meigo e fácil de lidar, tímido até ter medo da própria sombra. Quando se ouvia, por exemplo, o estoiro de um foguete, ele atirava-se para o meu colo e agarrava-se-me ao pescoço até que o susto passasse. Escondia-se debaixo da cama só com o barulho de sacudir um saco plástico. E quando saíamos a passear para o jardim do seminário, nunca se afastava mais de cinco, seis metros de mim, sem trela nem avisos. Era quase um cão felino.

Criámos rituais um para o outro. Como um cão, vinha esperar-me à porta, e lá ficava-mos nós um bocado a conversar, eu a dizer-lhe baboseiras, ele a trinar de contente, com aqueles olhos verdes e felizes cravados em mim. Tinha um fetiche pelos meus pés: sempre que descalçava os sapatos, lá aparecia ele, vindo de qualquer lado, a atacar-me os pés, às dentadas e arranhadelas que, no fundo, eram só brincadeira: os pés eram um brinquedo.

Pela manhã, sobretudo quando eu dormia mais do que era habitual, e antes do despertador, lá vinha ele lamber-me a cara ou passar as patas pelos olhos, como que para os abrir. Sempre me comoveu uma certa tristeza no seu olhar, uma tristeza misturada com mansidão, doçura, obediência.

A doença dele quebrou quase todas as rotinas. A certa altura, depois de ter vomitado umas coisas estranhas, passou a noite num gemido baixinho. Decidi então ligar ao Mário, amigo de longa data e veterinário de profissão. O dia final foi agendado para três de junho, às cinco horas da tarde. Eu acabara de decidir o dia e a hora em que o meu gatinho havia de morrer e isso inquietou-me de uma maneira bastante incómoda.

À hora marcada chegou o Mário ao meu quarto e eu estive quase para lhe dizer “dá-me mais um dia ou dois…” Mas não. E eu, a chorar por dentro de mim abaixo, tomei o Júlio II no colo e ele levou a primeira injeção: ficou a olhar para mim, os músculos a relaxar, as pupilas a abrir até cobrirem todo o verde dos olhos. Foi-se apagando devagarinho, de mansinho. Uma segunda injeção trazia o veneno que o matou sem dor.

Como num ritual, abracei o seu corpo inerte e levei-o para o canto preferido do jardim onde, com alguns amigos, o depositei numa cova, como quem põe um ramo de flores num vaso.

Os esforços para não chorar fracassavam de vez em quando. Tive uma longa reunião nessa noite, que me desanuviou um pouco. Regressei ao quarto e sentei-me a ver um pouco de televisão, acho que um interessante e vivaz “Eixo do Mal”.

Ensonado depois do programa, levantei-me da poltrona e preparei-me para a cama. Chamei: “Júlio? Julinho?” E o Júlio não apareceu. Foi então que me caiu a ficha: o Júlio II nunca mais viria. Nunca mais o seu miar, nunca mais o seu olhar triste, as brincadeiras com os pés ou a luta contra as minhas mãos, o ronronar doce, os seus olhos verdes, a sua alegria quando eu chegava, a sua tristeza quando eu saía. “Nunca mais” é muito tempo. Nunca mais o Júlio. Uma tristeza caiu com estrondo do céu. E caiu com tal peso que me ajoelhei no meio do quarto, pus as mãos na cara e chorei desalmadamente como nunca tinha visto, assim, uma criança chorar. Deitei-me a chorar, acho que adormeci a chorar e acordei no outro dia ainda com lágrimas nos olhos.

Já se passaram quatro meses e ainda, de vez em quando, como agora mesmo, uma lágrima mais teimosa me corre pela cara abaixo. Há de haver quem esteja a rir de tudo isso. Compreendo. Mas não rio.

Agora tenho em casa um furacão chamado “Julieta”, tigrada, com umas orelhas de raposa e uns olhos que falam. Já foi furacão de categoria 5, agora deve ir em 3, não vejo a hora de passar, ao menos, a tempestade tropical. É uma gatinha linda e hiperativa, que não me deixa descansar nem de noite, às vezes.

Nada que me faça esquecer o Júlio II, pois cada coisa no seu lugar. Para o Júlio encontrei um pequeno altar na minha memória. Ainda hoje me custa esse “nunca mais” tão inexorável, tão pesado, esse “nunca mais” que só a morte tem capacidade de ditar. Estou para plantar qualquer coisa – um arbusto, muitas flores – no lugar onde ele está enterrado. Que não seja esquecido aquele ser que durante onze anos me ajudou a tirar muitas dores e tristezas de cima dos ombros, aquele animalzinho que me ajudou a compreender como se pode gostar sem esperar nada em troca.

Não poucas vezes me vejo a pensar: e se fosse um filho? Que Deus me perdoe…