Pelo padre José Júlio Rocha

Um homem só é pouca gente. Terá sido nisso que minha mãe pensou quando, em agosto de 2010, me fez uma chamada telefónica da Fonte do Bastardo para São Pedro. Tinha eu acabado de me fixar numa casinha, ali para os lados de São Carlos, aonde havia de viver três animados anos. Minha mãe nunca gostou de eu viver sozinho, porque não sabia fazer comida de jeito, não comia a horas, era, de todos os irmãos, aquele mais distraído e mais a leste das coisas práticas da vida.

Na chamada telefónica, minha mãe disse-me que sabia de uma amiga que tinha uma ninhada de gatinhos para dar. Se eu queria um, etc. e tal. E eu, que nasci entre gatos e entre gatos hei de morrer, abalei para a Fonte do Bastardo no dia seguinte e, entre a ninhada de gatos, escolhi o único que era negro, preto retinto, porque os gatos pretos me dão sorte. O gatinho, de pequeno, cabia enroscado na palma da minha mão. Ainda não tinha um mês. Minha mãe avisou-me logo que não desse ao gato um nome de pessoa, como é de moda, porque isso pode ofender as pessoas com o mesmo nome. E eu, mais a gozar do que a sério, decidi que o seu nome seria Júlio, tal como eu, e, assim, ninguém ficava ofendido. Ficou Júlio II, porque o primeiro era eu e também em homenagem a um papa que foi mecenas e tirano nos tempos do Renascimento. Minha mãe nunca o chamou pelo seu nome: chamou-o sempre “Získi” – sei lá porquê – todas as vezes que, por motivos de viagem, levava o gato lá para casa da mãe passar umas férias na companhia de outros felinos. Ninguém chama Júlio II a um gato!

Em pequenino, o Júlio II não era lindinho como todos os gatinhos. De cara bicuda e uns pelos esganipados, o Júlio II era, no entanto, um animal mansinho e doce. Antes de começar a fazer xixi pelos cantos da casa, levei-o a castrar e ele cresceu, tornou-se uma bola de pelo bonita, com uns tons acinzentados por detrás das orelhas e a sair por entre as garras das suas patorras largas. Tem uns olhos amarelo esverdeados, grandes e lindos, a tender para o triste.

O que mais me impressiona no Júlio II é que parece ter uma alma de cão em corpo de gato. Agora, que desde há sete anos vivo no seminário, mal ele sente os meus passos no corredor, vem a correr para a porta, a miar, a miar, a miazar, esfrega-se-me nas pernas, tufado e com a cauda peluda e larga como uma árvore de Natal, feliz por me reencontrar. Dorme numa cestinha ou aos pés da cama e, de manhã, antes de o despertador me abrir os olhos, lá vem ele lamber-me a cara como quem sabe as horas.

Os gatos também têm os seus rituais e o Júlio II não foge à regra: todas as vezes que acabo de tomar duche e saio, lá entra ele, para brincar com as gotas de água que caem, compassadas, do chuveiro. Quando vou à casa de banho, lá vai ele à sua caixinha, quando me sento a ver televisão ou a ler, salta ele para o meu colo, dá duas ou três voltas sobre si mesmo, levanta a cabeça a olhar o mundo, enrosca-se e pede duas ou três festas antes de começar a ronronar satisfeito.

Teve o seu momento de fama em 2014, aquando de uma campanha contra o abandono dos animais. Apareceu num “outdoor”, ali, no edifício da Câmara de Angra, sentado sobre o meu ombro, com o olhar fixado no fotógrafo. Todos diziam que era um gato lindo. E eu inchado com o meu bichano.

Já lá vão dez anos de companhia quase permanente. Dez anos de paz e sintonia. Conversamos os dois, eu a dizer-lhe tolices e ele a responder com aquele mio trinado e feliz. Os vizinhos do meu quarto já me disseram que ele às vezes mia muito quando eu estou ausente. Nem os animais gostam de estar sós. E eu costumo levá-lo a passear pelos jardins do seminário, ele a explorar cantos e flores, a comer ervas, a cheirar o ar e a atirar-se aos pássaros e insetos, sem nunca se afastar de mim mais de dez metros.

O Júlio II já não vai para novo. Dorme muito e já não brinca como brincava. Ultimamente tenho-o achado mais triste e sossegado e, sobretudo, com uns comportamentos estranhos, uma diarreia teimosa muitas vezes derramada fora da caixa, o que nunca acontecia. Dei-lhe um comprimido para desparasitar mas não resultou.

Levei-o então ao veterinário e ele portou-se como um homem, embora transido de medo porque é um medricas em ambientes estranhos. Quando o levaram para dentro para tirar sangue, os seus olhos fixaram-se em mim a pedir socorro, olhos grandes com a bola preta dilatada, com medo mas obediente.

Chamaram-me para dentro. O veterinário não tinha boa cara. Disse-me que o diagnóstico não era bom, os níveis do fígado e dos rins eram graves. O Júlio II tinha leucemia felina. A fugir à lógica, perguntei qual era o tratamento. “Não se pode fazer muito”, sentenciou o veterinário. Uma vacina de cortisona e um probiótico, mas tudo iria piorar. Entendi que o Júlio II estava condenado e os meus olhos fugiram para o chão, o veterinário a dizer-me o que devia fazer e os meus olhos fixos na janela, na prateleira do laboratório, no chão outra vez, marejados de lágrimas, não fosse o homem reparar nessa irreprimível vontade de chorar, nesse nó apertado na garganta.

Mais cedo ou mais tarde terei de mandar abater aquele animal doce e amigo que foi a minha companhia durante dez anos. Ele não sabe, sei-o eu. E agora quero fazer-lhe todas as vontades. Levá-lo a passear, dar-lhe mimos, comprar salmão fumado que ele adora.

“Não passa de um gato” ou “antes ele do que eu” são frases para as quais não tenho paciência. Não. Não é um ser humano nem o quero comparar a isso. Mas ele faz parte dos últimos dez anos da minha vida e é difícil não deixar derreter o coração.

Nem quero pensar na hora em que lhe hei de dar o último abraço antes de o entregar nas mãos do veterinário, na hora fatal, com aqueles olhos a olhar para mim, grandes de pedir o socorro que não lhe darei.

*Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.