Pelo Pe Teodoro Medeiros.

Cinema que passa para a língua inglesa… mais um Iñárritu à vista? Mais um que cai pela sedução de ser conhecido pelo Uncle Sam? O realizador de “Amor cão” resistiu à internacionalização (“21 gramas” tem até um Sean Penn de luxo) e “Birdman” recebeu 4 óscares… terá então caído assim tanto? Quem abaixo se assina considera “Birdman” fraco e ainda não viu “The Revenant”. Mas voltemos ao realizador italiano.

Há alguns anos, “As consequências do amor” aparecia com frescura e estilo; sempre ágil detrás da câmara, Sorrentino contava a história com viravoltas e golpes de asa interessantes. Não aborrecia, não era comercial, não era demasiado cheio de si mesmo e dos seus tiques: lufada de ar fresco no rosto do apreciador. Era um novo estilo, mostrava personagens que tinham estilo para dar e vender.

“O divo”, logo a seguir, desiludia bastante: demasiado confinado à política italiana e aos seus históricos corruptos. Temperava-se com imagens de palácios romanos ímpares mas sofria de ódios biliares evidentes (a esparrela em que caiu, ainda mais estrondosamente, Nanni Moretti e o divórcio e Berlusconi e o divórcio e B…, em “O Caimão”). Arte com interesse social elevado para um único país e universal baixo valor artístico.

A seguir, “Este é o meu lugar” recolhe Sean Penn mas nada da crítica. “A grande beleza”, no entanto, foi um sucesso e assinala a consagração junto dos críticos. E óscar de melhor filme estrangeiro. Mas existe um mas (deveria ser maiúsculo?): o nosso povo diz que presunção e água benta, cada um toma a que quer. E o filme peca por tentar ser um novo Fellini; por retratar uma época da vida romana através do seu estilo, da sua moda, da sua vida noturna, das suas festas e divertimentos, das relações sociais e pessoais dos burgueses.

Retratar burgueses poderá ser meritório, desde que existam personagens. Ou que a sua existência não se reduza a 2 tiques sociais, a tão desprezada unidimensionalidade. São precisamente estes os mesmos defeitos de “Juventude”, o segundo filme em inglês deste autor. Talvez não haja outro cineasta que trate tão mal os seus personagens: todos sofrem, ou agressões, ou depressões, ou duras reprimendas ou pior. É um tique de autor de culto. O autor que se distancia de qualquer sentimento de compaixão e empatia; tudo e todos devem ser ridicularizados.

Outro ainda, mais frustrante, é o hábito de mostrar alguém a fazer o que garantiu que não faria. Porque sim e pronto. Ou atribuir a homens adultos comportamentos próprios de pirralhos. Porque sim. Um ator representa Hitler ao pequeno-almoço (a comer com a mão direita: o führer era esquerdino). Porque sim. O maestro (Michael Caine) aperta na mão, ruidosamente, um papel de rebuçado que chama a atenção para o meio (o filme, o realizador) … remando contra o fim, contar a história (sim, são spoilers mas pequenos).

Dito isto, Micael Caine e Rachel Weisz fazem tour de force com a capacidade de representar e impressionam certamente. O cuidado posto em cada plano e cada sequência é exemplar e muito estético… não faltam belas imagens naturais ou construídas. Grandes sequências até, do ponto de vista técnico. Muitos dos diálogos são acutilantes, bem desenvolvidos e profundos. O edifício é, sem dúvida, muito belo e colorido e bem musicado; é um monumento. Os prémios recebidos só olharam para isso.

A certa altura, o velho realizador (Harvey Keitel) diz: -“as emoções… são tudo o que temos”. Num filme tão frio e cínico, oh que ironia!