Organismo da Igreja Católica Portuguesa sublinha “oportunidade e pioneirismo” do Papa no atual contexto mundial, salientando que interpelações do Papa são “um serviço que a Igreja pretende prestar à humanidade”

A Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) destaca a importância da encíclica Magnifica Humanitas, na qual o Papa Leão XIV reflete sobre os desafios colocados pela Inteligência Artificial (IA) à luz da Doutrina Social da Igreja, sublinhando, em comunicado, que a revolução tecnológica em curso constitui uma das grandes questões históricas do nosso tempo, com impactos sociais, económicos, culturais, éticos e antropológicos.
“Estas reflexões e propostas do Papa Leão XIV têm recebido bom acolhimento em vários quadrantes, que destacam a sua oportunidade e até o seu pioneirismo no atual contexto mundial. São um serviço que a Igreja pretende prestar à humanidade” salienta o comunicado do organismo católico, enviado aos jornalistas.
Nesse documento, a CNJP sublinha que o Papa propõe uma escolha fundamental: não entre aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas entre “edificar Babel, ou reconstruir Jerusalém”. A primeira simboliza a autossuficiência e a concentração de poder; a segunda, a responsabilidade partilhada e a construção do bem comum.
“Sem pretender esgotar todo o rico conteúdo desta encíclica que apela ao investimento na educação, ao cuidado com as relações humanas e à importância da construção de uma civilização do amor, assente na justiça e na paz”, a Comissão Nacional Justiça e Paz salienta três ideias principais. A primeira tem a ver com a reflexão feita acerca dos novos desenvolvimentos tecnológicos à luz dos princípios da Doutrina Social da Igreja. A segunda é sobre a natureza humana e a sua capacidade de não se conformar com um destino fechado e de aí encontrar um campo aberto à conversão pessoal e coletiva. E, finalmente, a terceira prende-se com os desafios concretos colocados por esta carta encíclica, refere ainda o comunicado.
De acordo com a leitura deste organismo da Igreja Católica em Portugal, Leão XIV alerta para riscos como a concentração do controlo das plataformas digitais, dos dados e da capacidade computacional nas mãos de poucos, situação que “contradiz o destino universal dos bens e alimenta o fosso entre incluídos e excluídos”. O Papa denuncia igualmente a “economia digital da atenção”, que explora fragilidades humanas e pode enfraquecer a liberdade interior.
O comunicado aplaude também a “especial” atenção dada ao trabalho, advertindo que a automação e a IA não podem conduzir a uma sociedade onde apenas uma minoria tenha acesso ao emprego. O trabalho, diz, continua a ser um espaço essencial de realização pessoal, relações humanas e participação na comunidade.
No plano antropológico, diz a CNJP, Leão XIV rejeita qualquer equiparação entre inteligência artificial e inteligência humana. Embora capazes de processar informação a uma velocidade sem precedentes, os sistemas de IA “não vivem uma experiência, não possuem um corpo” nem dispõem de consciência moral. Por isso, alerta para o perigo de confiar a máquinas decisões que afetam profundamente a vida das pessoas.
O documento manifesta ainda preocupação com a utilização da IA em contextos militares, acompanhando o Papa na ideia de que “não é lícito confiar a sistemas artificiais decisões letais ou, de qualquer forma, irreversíveis”. Neste contexto, reafirma que a teoria da “guerra justa” deve ser considerada superada.
Apesar dos riscos identificados, a encíclica apresenta uma mensagem de esperança, defendendo que a história não é “um destino fechado”, mas um espaço aberto à conversão pessoal e coletiva, conclui a Comissão Nacional Justiça e Paz, salientando valores como: permanecer fiel à verdade, investir na educação, cuidar das relações humanas e promover a justiça e a paz.
Para a CNJP, estas reflexões representam “um serviço que a Igreja pretende prestar à humanidade” e constituem também um desafio de coerência para a própria comunidade cristã.