Por Carmo Rodeia

O Papa Francisco tem pedido insistentemente aos cristãos que sejam misericordiosos como o Pai, lembrando que a misericórdia “é a trave mestra da vida da Igreja” e não uma palavra abstrata. E é um pedido que faz com insistência aos sacerdotes.

Na bula que escreveu quando convocou o ano Santo da Misericórdia afirmava “Jesus de Nazaré com a Sua palavra, com os seus gestos e com toda a Sua pessoa revela a misericórdia de Deus. Nele não há nada em que falte compaixão”. E, mais à frente acrescentava: “a Sua Pessoa não é outra coisa senão Amor, um amor que se doa e oferece gratuitamente. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, para com as pessoas pobres, excluídas, doentes e em sofrimento, levam consigo o distintivo da misericórdia”.

Este fim de semana o Santo Padre escreveu aos sacerdotes de todo o mundo, num momento particularmente critico da Igreja, nomeadamente depois dos sucessivos escândalos dos abusos sexuais do clero sobre crianças.

Francisco evoca a figura de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, como “modelo de bondade e caridade para todos os sacerdotes”, desejando que sirva de inspiração para “redescobrir a beleza e a importância do sacerdócio ministerial na sociedade contemporânea”.

“Estou convencido de que, na medida em que formos fiéis à vontade de Deus, os tempos da purificação eclesial que estamos a viver nos tornarão mais alegres e simples e, num futuro não muito distante, serão muito fecundos”, assinala Francisco.

Desde sempre, e neste tempo muito em particular, a misericórdia é a emergência que encontramos no coração do Homem contemporâneo. E um sacerdote, até pela configuração da sua vida à de Cristo deve ser o sinal primeiro dessa misericórdia.

Quando alguém se abeira do sacramento da reconciliação é isso que procura, mais do que a tão almejada absolvição: alguém que oiça o que é dito e o que não é dito ou que fica por dizer; conforte antes de recriminar, ajude a discernir em vez de condenar. É essa escuta profunda do outro que permite a hospitalidade, que permite o acolhimento. E o grande instrumento dessa escuta é o coração, só pode ser o coração, como dizia Antoine de Saint Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”.

Aplicando à confissão, muitas vezes o essencial não se diz nem se ouve, apenas se intui com o coração. É assim na vida não há de ser diferente na confissão. Não sou confessora mas oiço com regularidade comentários sobre este ou aquele confessor.

Longe de mim fazer qualquer juízo de valor, até porque seria absolutamente injusto. Desde logo porque era feito com base na escuta apenas de uma das partes. Segundo porque era um julgamento sobre outro julgamento e isso não é bom. Mas uma coisa tenho a certeza: não escutar com o coração, num momento em que o outro, vulnerável, abre o livro da sua tragédia, é uma falta quase tão grande quanto os pecados que hão de ser ou foram confessados. Sobretudo se tivermos presente o essencial que este sacramento oferece: a criação de uma segunda oportunidade para a transformação da vida de cada um de nós. E , já agora, um sinal de reforma da própria Igreja.