Por Padre Hélder  Miranda Alexandre

O Papa Francisco anunciou recentemente o jubileu da misericórdia para o próximo ano pastoral, de 8 de Dezembro de 2015 a 20 de Novembro de 2016. Concretiza-se deste modo uma longa tradição que remonta ao tempo do Papa Bonifácio VIII: «Caros irmãos e irmãs, tenho pensado muito sobre como a Igreja pode tornar mais evidente a sua missão de ser testemunha da misericórdia. É um caminho que começa com uma conversão espiritual. Por isso, decidi convocar um jubileu extraordinário que terá no seu centro a misericórdia de Deus. Será um ano santo da misericórdia».

A palavra misericórdia, muito cristã, está associada a um certo peso característico da Quaresma e da Semana Santa. Normalmente define-se como próxima da penitência ou da confissão dos pecados. No entanto, a própria etimologia do termo é surpreendente. Na língua latina significa ter um coração – cor, cordis – próximo dos pobres – miseri. Significa descentrar-se do “eu” para ir ao encontro dos outros, fundamentalmente, os mais débeis e pobres. Os Padres da Igreja, nomeadamente Santo Agostinho e São Tomás, adoptaram este sentido literal e definiram a compaixão como com-sofrimento: «miserum cor habens super miseria alterius» (ter um coração mísero em favor da miséria do outro). Não se trata de um simples sentimento, mas de ação, que tende a superar as carências e a dor.

A cultura Bíblica é ainda mais fascinante. No Antigo Testamento, o termo misericórdia deriva da palavra rehem, ventre materno ou vísceras do ser humano, sede dos sentimentos. Também está relacionada com o termo coração – lebb – que indica o centro do homem, a sede dos seus sentimentos e juízos. A compaixão não é uma debilidade, como nas filosofias antigas, mas faz parte do homem, que não se deve envergonhar das próprias lágrimas. Refere-se igualmente ao coração de Deus, que se preocupa do homem e do seu pecado. O profeta Oseias é admirável! Refere-se ao coração de Deus, de modo incomparável e dramático, que se comove (no seu coração) e se contorce de compaixão (Os 11, 8). A missão e Pessoa de Jesus cumpre plenamente esta ideia e revela a verdadeira imagem de um Deus, que se compadece das multidões, sobretudo dos que mais sofrem, e da sua pró-existência em resgate de todos. Para começar, basta pensar na Parábola do Pai Misericordioso.

Desde o início do seu Pontificado, o Papa Francisco tem insistido na centralidade desta palavra para a vida cristã. Chegou mesmo a apontar um livro do Cardeal Walter Kasper, Misericórdia, em que o autor afirma que é necessário retirar a misericórdia da sua existência de cinderela, na qual tinha caído na teologia tradicional. Refletir teologicamente acerca da misericórdia induz a colocar as questões fundamentais da doutrina acerca de Deus: a misericórdia divina constitui o núcleo e a suma da revelação bíblica de Deus. Esta é a Sua justiça específica e a Sua santidade. Só neste modo podemos fazer brilhar de novo a imagem do Pai bom e misericordioso, pregado por Jesus.

Esta temática constitui um desafio a redescobrir a imagem de Deus, a vivenciar as virtudes autenticamente cristãs e os próprios ritos sacramentais, nomeadamente o sacramento da reconciliação.

 

Pe Hélder Miranda Alexandre