Pelo Pe Hélder Miranda Alexandre*

Realizar uma avaliação ou simplesmente abordar a história de alguém é um risco, porque facilmente se pode cair numa injustiça que engana o sentido verdadeiro da história e da complexidade dos factos e das suas circunstâncias. Por outro lado, cada um tem a sua visão própria das realidades, os seus sonhos, conforme as vivências e conhecimentos que possui. Esse risco é maior quando se trata de alguém que assume o episcopado de uma Diocese. Parece-me que só o tempo permitirá realizar um estudo equidistante e honesto acerca daquilo que foi o episcopado do Sr. D. António. Por isso, nem sequer me aventuro a ter a presunção dessa avaliação histórica.

Simplesmente posso confidenciar aquilo que sei e vivi com o Sr. D. António, o Bispo que me ordenou e que, agora, já com saudade, vemos deixar a Diocese. Desde que o conheci o reconheci como pai e pastor. Após a ordenação, enviou-me para a Ilha do Faial, para uma aventura e missão que me encheu a vida e o ministério. Sempre senti a sua bonomia como autoridade, apesar ser erroneamente entendida por muitos e muitas vezes abusada.

Admirei sempre a sua proximidade, a sua paixão por estar com o povo. Uma vez, numa visita pastoral, surpreendeu-me… Tinha acabado de fazer umas cópias para uma celebração, não me recordo bem qual, e, depois de ter saído por alguns momentos, encontrei essas mesmas cópias dobradas e ordenadas. Tinha sido ele. Sem palavras, simplesmente agradeci. D. António habituou-nos a esses gestos. Ainda paroquiava apaixonadamente quando me pediu para ir estudar para Roma. Aceitei, mas com algumas reticências. Alguns anos depois entregou-me a reitoria do Seminário. Aceitei novamente, mas ainda com mais reticências. O projeto era e é desafiante, o de ajudar a fazer crescer a vocação sacerdotal, nas minhas limitações. Também não sei contar quantas vezes me foi visitar ao Hospital depois do grave acidente que sofri. Sei que ele está entre os que mais me acompanharam nessa fase tão difícil.

A nossa relação tem passado muito pelo Seminário. Regularmente nos visita, nos incentiva e nos apoia. As minhas palavras são simples e modestas: muito obrigado Sr. Bispo! Na verdade, tudo passa depressa…

A mudança está em curso. Espero e desejo que o Sr. D. João Lavrador continue a ser aquilo que tem dito e feito desde o início: próximo, mas com autoridade no ser. A sua paixão pelo Seminário incentiva-nos a sonhar e a levar por diante este projeto e a tentar concretizar uma Igreja mais competente e mais próxima dos homens de hoje, na periferias, nos seus variados problemas. Parece-me que o seu livro “A Igreja em diálogo com o Mundo” contém muito daquilo que a Igreja e o Mundo esperam dele. Não podemos pensar que ele vai resolver todos os problemas. O Reino de Deus é como uma semente que germina e cresce no escondido e com muito tempo. Acredito, por isso, que o seu modo de ser nos vai ajudar a todos a caminharmos unidos, sabendo para onde o Senhor Jesus nos leva. Na verdade, há que confiar na ação do Espírito Santo!

 

* O Pe Hélder Miranda Alexandre é Reitor do Seminário Episcopal de Angra