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Por Francisco Maduro Dias

Dentro de alguns dias iremos recordar, mais uma vez, o dia em que o nosso mundo mudou, na ilha Terceira. Foi em Janeiro de 1980 e bastaram menos de 10 segundos.

Porém, nada que nos tenha acontecido, nestas ilhas todas, de Santa Maria ao Corvo, se assemelha ao terror e miséria a que vimos assistindo, na Ucrânia, desde há meses.

Apesar de S. Jorge guardar as memórias da erupção da Urzelina ou do Mandado de Deus; de Santa Maria e Graciosa recordarem as razias de argelinos; do Faial ter basta lista de terramotos e abalos; das Flores e Corvo estarem já tão “habituados a vendavais” que até surgem piadas sobre o assunto; de S. Miguel se recordar da tragédia da Ribeira Quente ou da destruição de Vila Franca; dos sismos e enchentes, nas palavras de Vitorino Nemésio, que povoam toda a nossa história humana, nada, mesmo nada, se pode comparar, seja em tempo seja em violência, ao que assistimos, todos os dias, na Ucrânia.

É que já são mais de 300 dias de permanente destruição, como se tivéssemos, todos os dias, desde há quase um ano, mais um terramoto, uma enchente, uma razia de piratas, um vendaval, seguidos, sem intervalo, sabendo que amanhã ou esta noite vai acontecer mais um e outros virão, sem descanso.

É pena serem precisos conflitos para lermos e aprendermos a História de certos lugares do Planeta que habitamos. Isso devia acontecer em tempos de acalmia, para permitir, um bocadinho que fosse, a construção de alguns momentos de paz.

Aquelas terras, entre a Europa e a Ásia, entre o Mar Báltico e o Mar Negro, entre o Norte, de gelos antigos e florestas frondosas, e o Sul, mediterrâneo e agrícola, são, ao mesmo tempo, o ponto de contacto e de clivagem entre modos de ver e conceber a vida bem diferentes, e esquecemos, queremos esquecer, que o mundo é assim e eles existem.

O ocidente tende a pensar e a querer as coisas de modo rápido, sempre disposto a negociar alternativas ou a abandonar as ideias, se percebe que os obstáculos são grandes ou se o caminho demora demasiado tempo. O oriente, por seu lado, pensa a prazo, a longo prazo. É teimoso e capaz de esperar longamente para chegar onde quer, nem que seja daqui a sessenta anos ou a dois séculos.

O interessante e trágico, neste conflito, é que ele acontece às portas da União Europeia e no continente europeu. Ele fez-nos assentar subitamente com os pés no chão, rebentando a bolha de conforto, esbofeteando-nos a cara, fazendo-nos olhar a realidade do Mundo, de frente, e redescobrindo que ela não é o que pensávamos.

É aqui que me pergunto que Natal é possível, nestes tempos, nestas ilhas, com aquela sombra negra em fundo, e a lição que tomo em mãos, daquelas terras geladas e violentadas, é de resiliência, de resistência, de persistência, de VONTADE.

Perceber que a minha paz, neste momento, está ligada ao seu sofrimento e usar do mesmo sentido de resiliência. Ajudar quem queira fazer caminho na construção de um espaço de compreensão dos meus semelhantes, é o mínimo que posso fazer. Persistindo, recomeçando sempre. Aqui onde é bem mais fácil.

Felizes Festas!

Francisco Maduro Dias é o presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz dos Açores. Este Texto foi publicado no dia de Natal, no jornal Diário Insular