Pelo Padre José Júlio Rocha

O primeiro cenário está montado. As muralhas do imponente Templo de Jerusalém esfumam-se ao fundo da paisagem. Homens aglomeram-se de pé, diante de um Jesus que, sentado, vai ensinando sobre a abundância do seu coração. Jesus sentado e todos de pé.

No segundo cenário, os escribas e fariseus arrastam consigo uma mulher que, por acaso ou por destino, foi apanhada em flagrante adultério. Sabemos bem do peso grave da infidelidade em todas as culturas. Mas na cultura semítica daquele tempo, nas sociedades patriarcais do médio-oriente antigo, onde pululava em muitos ambientes a poligamia, uma coisa era a infidelidade dos homens, outra, bem diferente, a das mulheres. Essa discriminação ainda hoje existe, matizada, é certo, mas todos sabemos que existe e desculpamos facilmente um homem que vai a uma casa de meninas em Lisboa ou em qualquer lugar; não se perdoa uma mulher.

Onde foram os fariseus e os escribas buscar a ideia de apedrejar até à morte a mulher apanhada em adultério? No livro do Deuteronómio, capítulo 22, pode ler-se a seguinte asserção:

 

Se a acusação for verdadeira e não houver provas da virgindade da donzela, levarão a donzela até à entrada da casa de seu pai e os habitantes da sua cidade apedrejá-la-ão até que morra, porque cometeu uma infâmia em Israel, desonrando a casa de seu pai.

 

A lei tem requintes de malvadez, porque a mulher não só desonrou o marido como desonrou também a casa de seu pai e é diante dos olhos do pai ofendido que a filha deve morrer, para que a honra da casa seja reestabelecida.

Entretanto, fariseus e escribas têm uma ideia: porque não apanhar dois coelhos com um só tiro? Porque não enfrentar Jesus com uma nova cilada e o levar a tribunal? As suas manigâncias propunham o seguinte: Jesus concorda ou não com o apedrejamento? Se Jesus não concordar, pode ser réu por se virar contra uma lei de Moisés (é preciso notar que essa lei iníqua nada tinha a ver com Moisés). Se Jesus concordar… não! Jesus nunca concordará com essa lei. Aí está! Jesus já está condenado porque nunca concordará com a lei.

A esfregar as mãos de contentes, escribas e fariseus dão entrada triunfal no Templo, onde está Jesus, arrastando consigo a pecadora, que é atirada para o chão, no meio da roda de homens de pé, diante de Jesus, sentado. E fazem-lhe a pergunta. Jesus inclina-se e, ao lado da mulher, começa a escrever no chão. Muitos teólogos já se perguntaram o que é que Jesus estava a escrever. Mais do que isso, importa reparar na posição corporal dos presentes, coisa muito significativa para os povos semitas. Estar sentado, como Jesus estava, é o lugar do mestre. Estar de pé, como os restantes, é uma posição de respeito mas também de honra, de reta moral. Prostrar-se é sinal de veneração. Estar dobrado no chão é sinal de humilhação. É assim que a mulher está, diante dos restantes homens, incluindo escribas e fariseus. Ora, ao escrever no chão, Jesus dobra-se, coloca-se na mesma posição da mulher, desafiando a lei e a ordem daqueles que a querem matar, como a dizer: “se a vossa reta moral é essa, o meu lugar é ao lado desta mulher”.

Os escribas e fariseus, incomodados com o silêncio de Jesus, insistem. É então que, da boca serena de Jesus, sai uma das sentenças que ainda hoje assustam: «Quem de entre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra». E continua a escrever no chão, abstraído do que virá a seguir.

Nem mas, nem meio mas… é uma verdascada certeira que ninguém esperava, uma sentença tão definitiva e cirúrgica que destrói, ali mesmo, as certezas dos escribas e fariseus. As palavras de Jesus são tão claras e chocantes que estarrecem. Ninguém atira uma pedra que seja. Mais do que isso, começam todos a sair, derrotados, rabo entre as pernas, pela porta fora, não só os fariseus e escribas, mas todos os presentes, num gesto simbólico de respeito e assombro, perante a força da nova Lei da misericórdia com que Jesus iria abolir as antigas leis da injustiça. Jesus fica só com a mulher, e aquele que não tinha nenhum pecado não condena a pecadora.

Esta cena é a primeira brecha aberta no imponente Templo de Jerusalém. Ruirá o mundo antigo à força da palavra de Jesus. O mundo novo da misericórdia e do amor tem as portas abertas por Jesus.

Dois mil anos volvidos, e depois das contingências da história, incluída a da Igreja, continuamos nesta corda bamba entre a misericórdia e a discriminação, correndo o perigo da infidelidade ao espírito de Jesus que é a mais grave das infidelidades no seio da Igreja. Falta-nos a coragem que não faltou a muitos homens e mulheres que foram condenados no seu tempo e hoje são heróis ou santos.

Não tenho dúvidas de que as mulheres foram – e são – discriminadas na Igreja, mas não é a isso que eu venho.

No dia 24 deste mês, o Papa Francisco referiu-se ao meu patrono, Afonso de Ligório, como um exemplo da moral da benignidade contra a moral do rigorismo legalista: “a teologia moral não deve ter medo de ecoar o grito dos últimos da terra e torná-lo seu. A dignidade do frágil é um dever moral incontornável e inadiável. É preciso testemunhar que a lei significa sempre solidariedade.”

Não é nas flores com que inunda o Santíssimo Sacramento nem nos cânticos litúrgicos a quatro vozes que a Igreja cumpre a sua missão de portadora de Mensagem de Jesus: é também na luta pela implantação da Lei fundamental da misericórdia, da justiça e do amor.

É uma dor de alma ver os cristãos a virar as costas à injustiça para enfeitar o altar.

 

*Este artigo foi publicado na rubrica Rua do palácio, da edição desta sexta-feira do Diário Insular.