Pelo Pe Paulo Borges*

Hoje, segundo sábado do mês de outubro, é o dia em que se comemora os Cuidados Paliativos a nível mundial, este ano 2015 dedicado à reflexão da temática: “Vidas silenciadas, pacientes silenciados”. Daí a razão desta breve reflexão que partilho convosco.

Após ler os dados, metodicamente tratados pela Dra. Maria do Rosário Vidal, a respeito dos doentes referenciados para a Equipa Intra-Hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos (EIHSCP), composta por 15 profissionais de saúde, reparei que nove dias é o tempo médio registado em que os doentes são cuidados pela Equipa. Nove dias a penas. Pouco mais de uma semana. Isto fez-me pensar na brevidade da vida. Mas também na necessidade de a Equipa chegar aos que sofrem mais cedo no tempo, apoiá-los e fazê-los encontrar o caminho da tranquilidade e da paz interior.

Fomos educados a pensar que a morte é algo que nos acontecerá para além da vida, desta vida. Parece que a nossa mente está armadilhada para pensar que o mistério da morte é maior que o mistério da vida. No entanto, o mistério da vida é infinitamente superior ao da morte. De tal forma maior, que é o mistério da vida que envolve a própria morte, por mais bizarros ou até naturais que sejam os seus contornos.

Também é de toda a razoabilidade reconhecer que cada ser humano é único e irrepetível e vai expressar à sua maneira a consciência da sua finitude. Pois, lidar com a vulnerabilidade é uma escola de vida: elaborar lutos e lutas, ritualizar despedidas, descobrir que o tempo contrai-se no aqui e no agora. Perceber que no hospital as noites são como as dores e as solidões intermináveis. Às vezes, regatear a cada minuto, por mais um minuto ou suplicar ao céu e à terra para que tudo termine de uma vez.

O medo. Sim, o medo e os medos agora vivem à solta cercando a mente e a alma. Deus não é evidente. Nem se torna evidente. Só a bondade sem limites faz prova de vida à espiritualidade saudável que pode satisfazer as profundas necessidades humanas de gratidão, reconhecimento e sentido para a vida. Estas sim são as portas do divino tão humano como nós.

Vejo multidões de olhos, onde a alma se põe à vontade, revelando docemente inconfessáveis segredos ou sentidos lamentos.

O processo terminal indica à pessoa que a doença grave e incurável ameaça a continuidade da sua vida atingindo um ponto sem retorno. Inexoravelmente levará a pessoa à morte. Enclausurada num corpo frágil e demasiado doente para se exprimir, não é negada a possibilidade de morrer naturalmente e acompanhada pelos seus mais queridos. Com um final feliz, não à Hollywood, mas celebrando a grandeza do dom da vida, no conforto e respeito pela dignidade de um ser humano, que quer ser humano até ao fim.

Termino, pedindo emprestado as palavras de Adriano Moreira, no seu texto “O acaso dos dias”: “A ideia de que o tempo se conta em unidades de vida aconselha, a admitir que a única coisa que se pode fazer com o tempo é não o perder, e que o tempo por sua vez faz implacavelmente a sua obra de esgotar as nossas unidades de vida: de vida feliz, de vida inquieta, de vida sofrida, de vida suspensa, de vida perdida. Em todo o caso com o amparo de que não envelhece quem envelhece ao nosso lado, os amigos, os filhos, a mulher amada: passa o tempo consumindo as nossas unidades de vida, vincaram-se as rugas, amortece a luz do olhar, ficam lentos os passos, mas nunca se extingue um sorriso que regressa, um gesto que se reencontra, uma mão que subitamente aperta a nossa com firmeza, cúmplice, calorosa, companheira, jovem.

O purgatório não é pois, e verdadeiramente, o acumular dos anos, o purgatório é a solidão da sobrevivência: sobreviver a todos os que não envelhecem quando envelhecem ao nosso lado, aos que andaram de companhia na infância distante, aos vizinhos da aldeia pequena e da cidade grande, aos parceiros de projetos, de vitórias e derrotas, aos mestres de exemplos e até de esquecimentos, às vozes encantatórias dos que pregam as utopias, às mãos inspiradas que multiplicaram a beleza, num tempo em que os pais e os avós já são apenas pó da terra a que regressaremos, para finalmente nos misturarmos no mistério do princípio e do fim”.

  • O Padre Paulo Borges é Diretor do Serviço Diocesano da Pastoral da Saúde e Capelão do Hospital Divino Espírito Santo