Texto de opinião do Vigário geral da Diocese de Angra explica culto do Divino Espírito Santo.

Nas origens do culto popular do Espírito Santo encontramos quatro fontes: a Bíblia, com as suas festas de Pentecostes e toda a literatura paraclética; a espiritualidade medieval lançada por Joaquim de Fiore e desenvolvida pelos franciscanos que a trazem para os Açores; a social, política e filosófica, tomada pelas cortes europeias dos séculos XII e XIII, onde se situa D. Dinis e Santa Isabel, a quem se pode atribuir a maternidade ritual dos festejos, sob a forma de império; o povoamento das ilhas, a partir do final do século XV, por católicos, já marcados cultural e culturalmente pelo espírito e ritos do Império, onde a carne, o pão e vinho eram os elementos básicos para a subsistência do culto.

O culto em si é bom. As pessoas, os ideais e valores que promovem também. Como toda a religião, precisa do Evangelho para lhe dar sentido e o purificar. O mesmo Espírito é também a alma e a vida da Igreja. Afinal o sonho do monge de Fiori é que a Igreja seja mais espiritual e menos carnal. Felizmente nos Açores houve compreensão, tolerância, e também admoestações e resistências, aliás, comuns a outras práticas da religiosidade que tem que ver mais com a disciplina e moral do que com a fé.

Há três estações ou lugares onde as festividades decorrem: a casa, o império e a igreja. Quando dizemos festividades, dizemos trabalhos, canseiras, gastos, orações, comidas, etc. Durante o ano e o tempo pascal é nas casas, nas famílias a quem saiu o Senhor Espírito Santo, no ano anterior, que decorrem os festejos. É ao imperador a quem cabe cumprir ou dar a “função” do Império. O prazer de ser imperador é o de servir e de dar, nem que seja por um dia. Nas semanas à volta dos Domingos de Pentecostes (50 dias depois da Páscoa) e da Santíssima Trindade (8 dias depois) é que as Irmandades, através dos seus procuradores ou comissionários, cumprem os deveres e rituais do Império, sobretudo através da oração e esmolas aos irmãos e aos pobres.

As festividades têm três componentes muito fortes: 1. oração e celebração com a coroação do imperador; 2. a comunitária, com os jantares, convívios e arraiais; 3. a social, com a distribuição de esmolas, de pão, vinho e carne aos irmãos e a todos os necessitados. O rito da coroação diz que o Império do Espírito Santo é dos que são como as crianças, como os pobres, como os presos, etc. Se uma pessoa destas governa o dito império, a lógica do governo é outra do que a que os impérios deste mundo promove. O culto tem uma forte carga profética e política, sem qualquer pretensão de imitação de papéis ou destituição de poderes.

O culto do Espírito Santo é muito importante na Igreja: é Ele que fala pelos profetas e anima a Igreja. Há movimentos carismáticos de atenção particular ao Espírito. O que é marcadamente açoriano é a forma do Império, e esta é uma iniciativa tipicamente popular, onde o mesmo Espírito também se manifesta. O desafio é, por um lado, não esvaziar o Império da verdade do Espírito Santo como “pai dos pobres” e, por outro, fazer que o Espirito Santo “impere” na sociedade e na Igreja. É esse o sonho dos pais fundadores do Império e dos nossos persistentes e resistentes antepassados.

* Artigo publicado este mês no Boletim da Sé

Cortejo procissional do Espírito Santo