Pelo Padre José Júlio Rocha

A adolescência é um modo de vida passageiro e brutal. Aquele hiato de cinco ou seis anos na vida da pessoa não é certamente o período mais estável. Deixamos definitivamente a infância para trás das costas e começamos a perder a inocência, tanto na sexualidade como nas comuns relações humanas.

A explosão de hormonas quase desintegra a existência, e começamos a sentir o corpo a deformar-se, o nariz a crescer mais do que devia, as pernas e os braços desproporcionados, as borbulhas na cara, os pelos incómodos e o formatar do corpo, tanto no homem como na mulher, à medida do adulto que ainda não somos. Temos vergonha da nossa voz, nem pinto nem galo, e a timidez dispara quando nos sentimos deslocados. Apaixonamo-nos pela primeira vez para o resto da vida. Nessa altura, a diferença entre um “flirt” e uma paixão eterna é que o “flirt” dura mais tempo. É a idade de todas as confusões.

A adolescência é uma criação cultural também, relativamente moderna. Nas sociedades primitivas, ou mais antigas, se quisermos, passava-se da infância para a idade adulta: aos doze, treze, catorze anos, quando saía da infância, o rapaz ou a rapariga já estavam prontos a casar e formar família. Hoje em dia a maturidade física, que chega cada vez mais cedo, não corresponde à maturidade psicológica, que chega cada vez mais tarde, lá para os 25, 30 anos.

É difícil, na nossa mentalidade, conceber como um rapaz que morreu aos 15 anos, em pleno século XXI, possa estar a caminho dos altares. Falo de Carlo Acutis, aquele jovem italiano que nasceu em Londres, em 1991, e viveu em Milão até ao dia 12 de outubro de 2006, quando morreu vítima de uma leucemia rara.

Imaginar um jovem dessa idade como beato é vê-lo de rosto seráfico, de cabeça à banda, uma espécie de anormal imberbe que não brinca com os colegas no recreio nem gosta de raparigas, apenas obcecado pelas coisas de Nosso Senhor, terço pendurado nas mãos, delicodoce, dependente da mãe e das suas saias a que se agarra.

Carlo Acutis foi exatamente o oposto. Adolescente como os outros e com os outros, foi simplesmente um rapaz que, desde criança, começou a viver a vida por uma causa. Jogava futebol e era adepto daquele desporto, especializou-se, desde pequeno, na programação de computadores e criou um “site” de adoração à Eucaristia que percorreu o mundo. Comungava todos os dias e a sua devoção eucarística, a forma como vivia e como se dava aos outros chegou a converter muita gente, incluindo os pais, até então praticamente agnósticos. Enfrentou a morte com uma hombridade única, oferecendo-a pela Igreja e pelo Papa com a serenidade de quem, aos quinze anos, já cumpriu o seu destino.

A vida de Carlo Acutis é um grito silencioso de alerta à adolescência do século XXI, contaminada pela falta de esperança, pelo medo do amanhã, pela ausência de causas. O jovem quer mudar o mundo? Oferecemos-lhe um telemóvel de última geração para ele lá dedilhar os seus interesses e esquecer-se do mundo. O jovem quer ser revolucionário? Qual quê! Metemos-lhe nas mãos computadores, jogos, últimos gritos da tecnologia para o manter manso, amorfo, inócuo, apático.

Os adolescentes costumam ter ídolos, desde o Cristiano Ronaldo aos DJ’s, aos “influencers”. Morto há 14 anos, Carlo Acutis não irá certamente competir com os heroizinhos das novas tecnologias e do futebol, vivinhos da costa. Mas será certamente uma pedra no sapato desta geração difícil e desorientada.

Acutis pontuou a sua vida pelo amor: à Eucaristia e ao irmão. Talvez seja esta palavra que mais caracteriza a vida curta desse jovem, feita de gestos simples e exemplares.

Se uma imagem vale mil palavras, um gesto, que seja só um, pode valer mil imagens.

Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular na rúbrica Rua do Palácio