
O padre Júlio Rocha, da Diocese de Angra, afirmou que o Espirito Santo aproxima os crentes dos ateus, indicou os sete dons como a “arte de viver” e lamentou a tentação da Igreja querer “dominar o Espírito”.
“A tentação da Igreja, sempre foi e vai continuar a ser, é fechar o ar dentro de uma gaiola. O Espírito Santo está fora, está no mundo, não está só na Igreja. A ideia de uma Igreja em saída, aquela imagem de um Jesus que bate à porta, mas bate à porta da Igreja pelo lado de dentro que quer sair, uma Igreja que suja os pés, uma Igreja hospital de campanha, uma Igreja que em vez de ir a Espanha, ou aos Estados Unidos, ou à França, vai à Mongólia, uma Igreja que rejeita o poder porque Espírito Santo e poder não coabitam”, assinala à Agência Ecclesia.
“A Igreja que vive a carta da sua constituição, que é o lava-pés, é uma Igreja em que o Espírito Santo é livre, em que se deixa o Espírito Santo falar, em que não se tem medo, em que o mais importante não é o acreditar nos dogmas, não é o acreditar na virgindade, mas perceber que é o amar que me vai levar ao céu”, acrescenta.
O vigário episcopal para o clero da Diocese de Angra afirma que “é terceira pessoa da Santíssima Trindade, o elo que une cristãos aos ateus”.
Desafiado a explicar os sete dons do Espírito Santo – Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade, Temor de Deus – e a conjuga-los na atualidade, o padre Júlio Rocha apresenta-os como a “arte de viver”.
“Sabedoria não é saber muito, mas aquilo que se sabe dar sentido à vida. Não é apenas um conhecimento intelectual, mas a capacidade de ver as situações e as realidades da vida, se calhar a partir do ponto de vista de Deus. Como é que Deus olhava estas coisas”, explica.
O segundo dom, o Entendimento, o sacerdote indica relacionar-se com “as verdades da fé”: “Não com a forma como olhamos o mundo, é a forma como olhamos as verdades da fé. Deixar-se invadir por Deus e conhecê-lo dentro de nós mesmos”.
O padre Júlio Rocha indica o Conselho como a “capacidade de discernir” e a Fortaleza como a “a coragem e a firmeza” que, lamenta, não existirem na Europa e no cristianismo ocidental.
“O cristianismo ocidental é o cristianismo burguês. Nós conseguimos a suprema proeza de servir a Deus e ao dinheiro, ou melhor, servimos o dinheiro e não servimos Deus. Somos cristãos instalados, somos cristãos sem coragem, cristãos de manutenção, cristãos que têm constante o medo de perder, medo de perder gente na Igreja, medo de perder valores cristãos, medo de que os muçulmanos invadam a Europa, medo do diferente. O cristianismo de medo não chega a lado nenhum. O cristianismo na Europa devia ser dos dons do Espírito Santo”, explica.
Sobre a Ciência, o sacerdote indica que este dom contraria o que “a Igreja católica procurou durante muito tempo – que os cristãos fossem ignorantes”.
“Conhecer, pensar, é de alguma forma ser expulso de algum paraíso. Não esqueçamos do mal que a Igreja fez a si própria ao não promover o conhecimento. A Igreja sempre teve gente na ciência e continua a ter. E nós não temos medo, não devemos temer medo de conhecer o outro”, indica.
O dom da Piedade, “o dom que não aparece no Livro de Isaías e que a Igreja acrescenta”, fala da “piedade com o amor”.
“Não foste à missa, blasfemaste contra Deus? O importante é ‘tive fome e deveste-me comer, tive sede e deveste-me beber. Eras estrangeiro, migrante, e acolheste-me’. Quem é que nos hoje visitamos? Para Jesus não há pobres bons e pobres maus; pobres que merecem o nosso amor e pobres que merecem o nosso desprezo; pobres do rendimento social e os ciganos e os imigrantes do Bangladesh merecem o nosso desprezo. Isto é anti-evangélico. É anti-Evangelho. Pobre não é aquele que merece o amor de Deus, é aquele que precisa do amor de Deus”, apresenta.
Sobre o último dom do Espirito Santo – Temor a Deus – o padre Júlio Rocha apresenta-o como a “capacidade do espanto”.
“Falta-nos voltar a ser crianças. Já nada nos admira, já nada nos faz cair o queixo, já nada nos faz o coração tremer, Parece que nos habituámos a tudo, e perdemos uma dimensão fundamental da fé”, lamenta.
O vigário episcopal para o clero da Diocese de Angra diz que a Igreja deve ser missionária para levar o amor, e só depois levar Jesus Cristo.
“Os missionários na Mongólia não falam de Jesus, não andam nas ruas a ensinar o Evangelho, não dão catequese, não fazem nada. Amam. Estão ali a fazer o bem só. As pessoas espantadas dizem – ‘eu quero ser como tu’ e aí começam a falar de Jesus”, explica.
A Igreja católica celebra, em algumas localidades até ao dia 24 de maio, celebração do Pentecostes, as Festas do Divino Espirito Santo, sendo o arquipélago dos Açores um local privilegiado.
(Com Ecclesia)