
O diretor Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos (CIEP) da Universidade Católica Portuguesa disse que, na viagem ao continente africano, Leão XIV evitou “cair um ativismo de fação” e mostrou determinação em construir a “unidade da Igreja”.
“É uma visita de procura de unidade e de reforço desta universalidade que é intrínseca à Igreja, mas que tem que ser cultivada. Eu creio que o Papa Leão está muito consciente desta necessidade”, afirmou André Azevedo Alves na entrevista Renascença/Ecclesia.
O professor catedrático na Universidade Católica Portuguesa (UCP) sublinhou que este pontificado de Leão XIV está “muito marcado pela procura da unidade”, referindo tomadas de posição na viagem a África sobre conflitos e corrupção, mas também sobre a liturgia ou a moral sexual, reafirmando a posição da Igreja e apelando a que as discordâncias evitem “clivagens muito significativas”.
André Azevedo Alves considera que Leão XIV toma posições “mais assertiva e mais concreta” só em “situações limite”, como aconteceu quando o presidente norte-americano se referiu à aniquilação uma civilização inteira.
“Eu creio que aí o Papa Leão, e bem, sentiu que deveria ir um pouco além do apelo geral à paz, que é importante e que é característico do discurso não só deste Papa, mas de Papas anteriores”, afirmou, lembrando a afirmação pública do líder da principal potência mundial e de uma nação que é maioritariamente cristã, “que era um discurso que não era de todo aceitável”.
André Azevedo Alves considera que o presidente Trump se “sente pressionado para as eleições intercalares” que vão acontecer nos Estados Unidos, em novembro, nomeadamente pela desmobilização do “voto católico” por causa da forma como Trump se refere ao Papa.
Leão XIV apelou à paz repetidamente durante a viagem ao continente africano, que levou o Papa à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial, entre os dias, 13 e 23 de abril, onde denunciou guerras em curso, exploração de recursos naturais e desregulação migratória, sublinhando tomadas de posição “em contextos políticos incertos” onde a Igreja evita “fechar completamente portas de diálogo e de interação com os poderes estabelecidos”.
“Eu acho que a Igreja é importante ter essa voz, mas essa voz ao mesmo tempo deve evitar cair num ativismo de fação”, afirmou o diretor Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos da UCP.
“É uma tensão que nunca será resolúvel. É desejável que a Igreja saiba claramente de que lado está, mas simultaneamente que não caia na tal posição de ser mais uma posição de fação, mais um ativista, que eu creio que a prazo acabaria por desvalorizar e menorizar o papel da autoridade da própria Igreja”.
O professor catedrático sublinhou que a denúncia da guerra “é uma denúncia que é feita de forma consistente e transversal”, lembrando a responsabilidade de todos e alertando para a utilização dos recursos “não para o bem comum, mas para o contrário, para a destruição, para a opressão, para causar sofrimento”.
“Parece-me que é um discurso importante, e aqui com esta nota de consistência e de unidade, ou seja, não é um discurso que seja dirigido nem só aos cristãos, nem só aos não cristãos, nem só aos crentes ou aos não crentes, há aqui uma responsabilidade humana e pessoal que é universal, e que o Papa se tem, a meu ver bem, procurado salientar”, afirmou.
Sobre os fluxos migratórios, André Azevedo Alves lembrou a necessidade de regularizar, mas também “reconhecer as causas”, atuando “sobre as condições de origem”, e o dever de tratar os migrantes “de forma humana”.
“A única forma de lidarmos seriamente e de forma robusta com o problema migratório é não nos focarmos só numa dimensão”.
Na entrevista Renascença/Ecclesia onde se analisa a viagem do Papa Leão XIV a quatro países africanos, o diretor do Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos lembrou que África é o continente onde “há um maior crescimento” na Igreja Católica.
“A Igreja é uma Igreja que caminha rapidamente para ser uma Igreja mais africana”, afirmou, lembrando o “conjunto de desafios” que daí decorre, nomeadamente o da unidade e da universalidade.
“O Papa Leão está muito consciente desta necessidade”, concluiu.
(Com Henrique Cunha , RR e Paulo Rocha, Ecclesia)