Por Renato Moura

Muito foi dito sobre D. António de Sousa Braga, quando partiu para o Pai, a 22 de Agosto. Não o pude fazer então. Creio ser sempre oportuno partilhar testemunhos.

Participei em conselhos pastorais diocesanos. Quando D. António era o nosso Bispo, só falava o indispensável. Assumia a humilde posição de ficar a ouvir, receber conselhos; ao invés de dar. Não se incomodava com as críticas; mostrava-se grato por ficar informado. Ali, como quando assiduamente visitava as ilhas, um homem a transparecer bondade e cuja sinceridade se sentia no abraço fraterno a todos.

Num desses conselhos abordava-se a possibilidade de, face ao fim do Jornal “A União”, arrancar com um semanário diocesano. Fui um dos que partilhou a impossibilidade de o projecto avançar imediatamente; e as fortes dúvidas sobre se essa ideia poderia algum dia concretizar-se! Na primeira oportunidade quis conversar comigo: com uma impressionante modéstia recolheu, da minha experiência, as dificuldades sobre a criação e manutenção de um título; por demais pretensamente regional! Agradeceu muito e sinceramente confessou estar mal informado.

Ido das Flores chegava mais cedo para os conselhos e saía tarde. Num realizado em Angra teve a gentileza de me albergar no Paço, nos dias sem Conselho; e ainda me convidou para jantar com ele e com o florentino Diácono Castelo. Com amabilidade – para ele era naturalidade – também me convidou para ir com a família hospedar-me no Paço, por altura do Carnaval. Preconizava então ir-se ver as danças, dizendo “aquilo é arte e embora eles também falem sobre mim e sobre a Diocese, é importante ir, pois assim se fica a saber a opinião do povo”.

Para quem considera isso importante, ele era Bispo nascido nos Açores. Mas toda a sua formação e desempenho meritório de cargos da maior responsabilidade, por décadas, foram realizados no exterior e deram-lhe dimensão. Aqui chegado para Bispo, estava livre das questiúnculas e pressões bairristas; sem o menor anátema.

Dotado, por natureza e formação, de qualidades pessoais, humanas e pastorais, manteve por 20 anos, com grande simplicidade e proximidade, uma ligação de amor ao povo e ao clero, marcada pela acessibilidade e disponibilidade para dialogar. A sua santa inocência permitiu abusos de confiança e fê-lo suportar estoicamente amargura.

Sem grandes discursos, foi a sua vida de serviço e valores a fazer dele um modelo a imitar. Não trabalhou para se mostrar, ou brilhar, mas na sua modéstia construiu um legado, a preservar, seja onde for, por qualquer bispo.