Por Carmo Rodeia

O mundo acordou este domingo com a notícia sobre aquele que é já um dos maiores naufrágios de sempre no Mar Mediterrâneo: 700 imigrantes, ao que se sabe, vindos da Líbia morreram, depois do barco em que viajavam ter virado perto da ilha italiana de Lampedusa. Sempre Lampedusa. A porta de entrada na Europa olhada, cada vez mais, como o salva-vidas do mundo, apesar da crise e dos problemas que nela proliferam.

Parece que à medida que o mundo islâmico avança, que o terrorismo cresce e a desesperança de milhares e milhares de pessoas aumenta, a Europa afigura-se sempre como a alternativa, uma espécie de porta do novo mundo, que abre o futuro esperançoso, que nós todos os dias desvalorizamos, perdendo até a confiança nas suas possibilidades.

O naufrágio deste domingo veio-nos reavivar a memória.

Cerca de 11 mil refugiados chegaram a Itália só nos últimos seis dias.

A guarda costeira italiana resgatou este sábado mais 93 pessoas das águas do Mediterrâneo, quando emerge uma  nova vaga de imigração clandestina.

Os 71 homens, 19 mulheres e 3 crianças chegaram ontem de manhã a Palermo, na Sicília. Tiveram, apesar de tudo melhor sorte que 12 cristãos que na terça feira se fizeram ao mar com mais 15 pessoas, e foram atirados borda fora, só porque eram cristãos. Para não falar dos milhares e milhares que têm perdido a vida ao longo dos últimos anos.

As autoridades italianas  fizeram  saber que  os centros de refugiados da Sicília e do país estão sobrelotados. Já se transformam hotéis em centros de acolhimento

Cerca de 91% dos migrantes acolhidos nos últimos dias terão embarcado na Líbia, onde a guerra entre fações e tribos rivais alimenta o fluxo de refugiados, permitindo aos traficantes agir em quase total impunidade. Até quando?

A Europa das oportunidades assobia para o lado. O Papa Francisco disse-o olhos nos olhos aos representantes dos povos europeus, no Parlamento Europeu no final do ano passado. E foi além da denúncia.

“Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda. A falta de um apoio mútuo no seio da União Europeia arrisca-se a incentivar soluções particularistas para o problema, que não têm em conta a dignidade humana dos migrantes, promovendo o trabalho servil e contínuas tensões sociais. A Europa será capaz de enfrentar as problemáticas relacionadas com a imigração, se souber propor com clareza a sua identidade cultural e implementar legislações adequadas capazes de tutelar os direitos dos cidadãos europeus e, ao mesmo tempo, garantir o acolhimento dos imigrantes; se souber adoptar políticas justas, corajosas e concretas que ajudem os seus países de origem no desenvolvimento sociopolítico e na superação dos conflitos internos – a principal causa deste fenómeno – em vez das políticas interesseiras que aumentam e nutrem tais conflitos. É necessário agir sobre as causas e não apenas sobre os efeitos”.

Todos aplaudiram, mas alguém ouviu?

Afirmar a dignidade da pessoa, herança do cristianismo de que a Europa é tributária, significa reconhecer o primado da vida humana, que nos é dada gratuitamente não podendo ser objecto de troca ou de comércio. Mais do que um apelo é uma obrigação.