Talvez por ser padre o assunto não seja particularmente da minha competência.

De facto não sou pai nem avô mas testemunho gestos e palavras que integro na minha missão e por isso fazem parte essencial de mim. Refiro-me claramente aos netos e aos avós que se constituem dois polos essenciais da nossa comunidade. Sou testemunha de gestos maravilhosos e de atitudes que ressalvam tantos desamores exibidos na nossa  sociedade, quase se propondo como modelos ou até como maioria normativa.
Vejo  como os avós estão a constituir cada vez mais na família um elemento constitutivo do cruzamento de afectos e dádivas. Fazem parte duma harmonia secreta entre pais e filhos e porventura entre esposos, na função de equilíbrio que cada vez com maior intensidade exercem. Direi mesmo que contribuem para a movimentação social que integrou a mulher no trabalho, na sua entrega profissional, competente, para além da grande missão de mãe. Graças aos avós supera-se melhor a complexidade que ainda existe na missão da mulher mãe e profissional. Concretiza-se na forma como distribui as tarefas, na partilha de talentos e na harmonia de realização. E, os avós aqui são muito mais que um instrumento utilitário. Facultam uma complementaridade afectiva que nenhuma instituição é capaz de substituir.

Pensarão alguns que estou numa situação retrógrada que ainda não assumiu o feminismo no seu todo ou que sou muito otimista ou idílico nesta  observação e que não tenho em conta as muitas e possivelmente progressivas roturas que  se verificam na vida dos casais.

Nada disso nego. Mas vivemos um período de transição e mudança que vai encontrar nos avós – aqui nem assenta bem a palavra “sogros” – um ponto de apoio insubstituível na família dos tempos de hoje. Muito mais que um recurso de tarefas ocasionais.
Todos vemos a “quebra” que sentem muitas pessoas ao entrar na reforma ou dobrar a classe dos sessenta – porventura antes, ou depois. Mas, também, testemunhamos  o mundo novo de afectos que o aparecimento dos netos constitui. Os avós, que tantas vezes juraram que, quando reformados, queriam  apenas descansar e mais nada fazer na vida, como que renascem com o aparecimento dos netos. Não para ter uma entrega de cansaço como  foi no aparecimento dos filhos, mas uma maneira nova de dar a volta ao amor que se conjuga com outros verbos, outras expressões, novos diálogos e uma redescoberta admirável do mundo surpreendente  trazido  pelas crianças em contacto com o outro polo da vida. Mais sábio, macio, mais paciente, porventura mais frágil, mas com mais tempo para reparar em tantas coisas que os pais não notam.

Os encontros “secretos”avós-netos tornam-se geradores de um conjunto de valores que são mais que uma tradição. Também no campo da fé. E daqui nasce um mundo novo de descobertas de parte a parte onde toda a família acaba por receber apoio, diálogo, abertura a novas dimensões. E quantas vezes à presença de Deus que poderá ter andado esquecido em nome de afazeres mais prementes. Feliz de quem redescobriu esta primavera. Ofereceu ao mundo uma dimensão que parecia esmorecida e triste. Mais simples do que parece, sem teorias extraordinárias que a sustente, esta nova medida da vida existe, está aí. Mas também aguarda tantos que continuam distraídos. Que o digam  os pais e os avós que acordaram para esta realidade que é muito mais que utilitária. É sinal e estímulo da vida que sempre espreita e se renova. Porque continua a ser verdade que o melhor do mundo são as crianças. Não me referi a elas muitas vezes neste texto. Mas são o  novo eixo na vida dos pais e dos avós.Continuam a ser o melhor do mundo.
Pe António Rego