Pelo padre José Júlio Rocha

Da Vila de São Sebastião, mais precisamente de um lugar chamado Rochão da Cruz, vinha um burro atrelado à velha carroça. Sempre gostei da bondade mansa dos burros, ajaezados com freios e albardas, amarrados ao seu destino, pacientes como os santos, inteligentes como poucos outros animais. O burro do padeiro da Vila era velhinho, de um cinzento a desbotar para o branco sujo, já um pouco curvado sob o peso de anos e anos a fazer sempre a mesma tarefa, a caminhar, todos os dias, quilómetros grandes, a parar diante das mesmas casas, num exercício impressionante de memória. E eu, com os meus cinco, seis anos, já apaixonado pela candura dos animais, fazia-lhe festas no focinho, no pescoço, aonde me abraçava. E o manso burro concedia-me aquele momento de paz, sossegado e meigo.

Meu avô não cultivava trigo e, por isso, comprava diretamente ao padeiro um saco branco, a espargir poeira branca da branca farinha. E dava um saco de milho para ser moído e entregue na semana seguinte. O ritual da cozedura do pão era um dos mais belos momentos da minha infância. Lá trazia eu um pequeno molhe de vides até à velha cozinha, imitando o avô, enquanto a avó ia aquecendo o forno. Entretanto, dentro dos alguidares, fermentavam as massas de trigo e milho, cobertas com um pano húmido e eu olhava, de vez em quando, levantando o pano, para aquela massa que, estranhamente, crescia, crescia, com aquele cheiro acre e único. Certos cheiros, já raros, levam-me à infância, despertando recordações há muito escondidas na memória do meu disco rígido.

O ciclo do pão é – ou era – uma metáfora da nossa vida. Mãos calosas e cansadas semearam o trigo nos campos e nos cerrados. A semente deu vida a um rebento que, ainda enterrado, branquinho e em grelo, já crescia na humidade quente da terra. Assim nós, nos primeiros nove meses da nossa vida. Também como nós, o trigo despontou, verdinho e tenro, ainda menino como a nossa infância. Depois foi crescendo e, ainda verde, espigando para a vida, na força da sua juventude, temperamental como a nossa adolescência. A vida amadurece-nos como o tempo e o sol amadurecem os campos de oiro do trigo. Até que chega o tempo em que a vida nos leva para longe, temos de levantar amarras e abandonar a nossa infância, partir, deixar as nossas raízes. É quando a foice corta, junto à terra, as searas, que já não pertencerão mais àquele campo que as gerou, e partem para outra missão.

Ainda me recordo das últimas eiras da minha terra. Era ali que o trigo era separado da espiga, purificado, assim como, tantas vezes em nossas vidas, temos de fazer escolhas e abandonar as prisões do passado. O sofrimento, a doença, o sacrifício e a dor são constantes da nossa vida. Não há vidas fáceis e o sofrimento é, não raras vezes, fonte de purificação e crescimento. Assim o trigo, quando chega ao moinho, é triturado pela mó, joeirado na peneira e se torna puro e branco, alva farinha, filha da dor. Se pegarmos num punhado de farinha e o atirarmos ao vento, nada sobra a não ser uma poeira espalhada e perdida: assim nós, sem os laços da amizade e do amor, não seremos mais do que poeira atirada ao vento. É preciso juntar a água, essência da vida, para que a farinha seja massa, e nunca mais estaremos sós. À fé, grão de mostarda que, misteriosamente, se transforma em arbusto frondoso, costumamos chamar de fermento. O que ela faz às nossas almas é semelhante ao que o fermento faz na massa: crescer em abundância de vida. O Amor de Deus é como um forno e com ele nos tornamos pão.

O pão era sagrado a ponto de beijarmos um pedacinho que nos caísse ao chão. Não se vendia, não se comprava: partia-se e partilhava-se. E havia sempre um quarto de pão pronto para qualquer pobre que nos batesse à porta.

Por cada pedaço de pão que comia eu amava a semente que alguém lançara à terra. Amava a plantinha que germinava, o trigo espigado de oiro ao sol, os grãos que se libertavam da palha. Amava o moinho que rodava a mó, a peneira que joeirava aquela farinha alva. Amava o fermento sagrado que esperava uma semana para fecundar a massa de abundância. Amava as mãos delicadas que amassavam e formavam habilmente os pães em cima da mesa, a pá que levava o pão ao forno, o forno que aquecia e tostava o pão. Amava aquele cheiro quente do pão que me sabia a mar, a terra e a céu.

Na missa, há um momento chamado Ofertório, quando oferecemos ao altar o fruto do nosso trabalho, o pão e o vinho. Não é só pão e vinho que oferecemos, é muito mais do que isso: é a nossa vida toda, simbolizada no ciclo do trigo e do pão, tal como no ciclo da uva e do vinho. Somos nós todos que nos oferecemos, semente, espiga, trigo, farinha, massa, fermento e, finalmente pão, partilha, amor, dádiva.

A panificação industrial veio destruir a nossa velha relação com o pão. O pão deixou de ser aquela oferta sagrada e passou a ser apenas mais um alimento, por desgraça desaconselhado. Quando alguém diz que a missa não lhe diz nada, talvez não perceba muito do pão e do amor, do ritual simples e belo de nos oferecermos completamente a Amor e dele recebermos, em comunhão, a plenitude.

Receio que não o compreendas…

*Este texto doi publicado no Diário Insular, na Rubrica Rua do Palácio