Por Carmo Rodeia

Desfaço já o enigma. O título deste editorial resulta de uma pequena história contada por um padre este domingo, em jeito de conclusão  da sua homília.

Numa aldeia antiga as ovelhas dos rebanhos andavam tresmalhadas com uns lobos farisaicos e os pastores apoquentados por não saberem o que fazer perante a agressividade dos predadores e o desejo de liberdade de algumas das ovelhas, mais ousadas que gostavam de se afastar do rebanho. Experimentaram tudo até que um percebeu que havia um outro que tocando flauta conseguia reunir todas as suas ovelhas, que viviam razoavelmente sãs e salvas, unidas em torno do pastor. Em segurança e em comunhão. A música da flauta unia-os contra tudo e contra todos.

Metaforicamente a flauta bem pode ser a palavra de Deus, o Bom Pastor. Aquele que guarda o seu rebanho e que garante que nada lhe faltará.

A história está naturalmente abreviada e certamente faltar-lhe-ão alguns elementos que, noutra circunstância a fariam mais complexa e profunda.

Volto ao Papa Francisco, como sempre, sem me cansar. Na ordenação de 19 novos presbíteros da diocese de Roma, neste domingo, dia Mundial da Oração pelas vocações e do Bom Pastor, o Papa volta a dirigir-se aos padres convidando-os a um “estilo de vida pastoral”.

E, assumindo-se como um entre iguais pediu a Maria ” que obtenha para si, para os bispos e para os sacerdotes de todo o mundo a graça de servir o povo santo de Deus através da alegre pregação do Evangelho, da sentida celebração dos Sacramentos e da paciente e mansa guia pastoral”.

“É feio, um sacerdote que vive para se agradar a si mesmo. Faz figura de pavão”, alertou sublinhando a “alegria” na vida sacerdotal e do “testemunho” que os padres são chamados a dar, porque “as palavras sem o exemplo são palavras vazias”.

Apresentando uma vez mais Jesus como o “verdadeiro e único pastor”, em contraposição ao “mau pastor, que pensa só em si mesmo e explora as ovelhas”, pediu-lhes que O seguissem e que não se cansassem de ser misericordiosos: “estareis no confessionário para perdoar, não para condenar”, declarou, pedindo uma “caridade sincera e sem vaidades” que fale “ao coração das pessoas por saírem dos vossos corações”.

Não há dúvida de que Francisco rompeu com o cerco, lutando contra uma cultura da indiferença, apresentando ao mesmo tempo como que uma espécie de remissão do cristianismo.

A igreja do perdão e da compreensão das doenças do homem moderno- a indiferença, a solidão, a fratura, o desenraizamento- tornam-na mais próxima, permitindo um verdadeiro diálogo mesmo com o mundo não crente.

Esta é a grande mais valia do Papa Francisco. Os dois carismas que transporta e que resultam da sua experiência diocesana, por um lado e de ordem religiosa por outro, num contexto geográfico preciso e exigente, determinam uma capacidade para compreender este mundo, tentando agir sobre a sociedade de um modo afirmativo.

O encontro que promoveu entre os líderes israelita e da autoridade palestiniana; o papel mediador da Santa Sé na reconciliação entre Cuba e os Estados Unidos ou a ida ao Parlamento Europeu, são sinais de grande esperança e de grande utilidade para a igreja católica. Sobretudo quando os cristãos começam a ser uma minoria ameaçada pelos extremismos fanáticos e radicais. E, ainda há quem resista a este “novo” modo de “pastorear”.