Pelo padre Marco Sérgio Tavares.

Fazer arrumações em casa é um exercício árduo: entre a decisão do guardar, reciclar, destruir, deixar em suspenso. Quando abrimos gavetas, envelopes antigos, livros… submetemo-nos a um privilégio: o de sentir saudades. De há uns tempos para cá, não sei se pela exposição à sucessão rápida dos dias, na contagem implacável do tempo cronometrado, dei comigo a encontrar autênticos mimos: pagelas de missas novas, uma carta do meu irmão mais novo para mim quando era seminarista, trabalhos antigos de alunos, disquetes no meu cacifo da sala de professores, bilhetes de avião e passaportes caducados, mapas de cidades e até um livro que procurava há tempos do biblista português, Pe Carreira das Neves, intitulado “Saudades de Deus”.

A saudade não é apenas esse indizível vocábulo linguístico. Ela é mais do que uma arca de madeira que revisitamos e cheiramos só porque tem bolas de cânfora (canfro – no dizer achadinhense). A saudade é um regresso a um mundo que ficou suspenso porque há sonhos que ficam sempre para amanhã. No pequenino O Livro do Joaquim, Daniel Faria, poeta-padre precocemente desaparecido, escrevia em 1993: “até hoje vivi mais das possibilidades do que das certezas, das esperanças mais do que das decisões. E agora que decidir é irremediável e o tempo para mim se fez lugar de angústia mais que redenção, invejo Moisés que tendo vivido o tempo da promessa, morreu antes de chegar à Terra prometida”.

O nosso Bispo emérito, o Mariense e Dehoniano Dom António de Sousa Braga, que nestes dias celebra as suas bodas de prata episcopais suscita-me saudade. Saudades de o ver no refeitório do Seminário a mandar-nos sentar quando ele entrava já com a refeição a decorrer; de o ver num parque de estacionamento nas vésperas de Natal, à procura de um presépio para oferecer a uma família; saudades de o ver na sacristia, depois de ter presidido à  minha missa nova na Achadinha, em 28 de julho de 2002,  a me felicitar pelo ocorrido e a dizer-me de viva-voz a minha primeira colocação paroquial e escolar, como um presente de Missa Nova. Dom António não tem medo de ser próximo e, quando tal não acontece, uma Diocese fica sempre com sonhos suspensos.

Ao arrumar nas prateleiras as Revistas da Academia São Tomás de Aquino, do Seminário Episcopal de Angra, senti saudades de ser diácono seminarista, quando juntamente com mais três colegas, desafiamos uma “máquina de fazer padres”, normalmente com erros de fabrico, e levamos a cabo umas jornadas culturais para discutir o papel da Igreja e do Estado, trazendo à tribuna e para dentro do Seminário vozes dissonantes como a Dra. Maria Barroso, Dr Mota Amaral, Pe António Pimentel, e até um Juiz Conselheiro do Tribunal Constitucional. O reitor da altura não nos deixou convidar o Álvaro Cunhal, talvez com medo de não saber dialogar com materialismos e ateísmos- mas nós não tínhamos medo e o sonho ficou suspenso.

Fazendo limpeza ao cacifo escolar que diz “Marco”, senti saudades de uma escola sem máscaras, de alunos que tinham gosto em ser finalistas e que agora nos abraçam com saudades; de arrumações e reuniões finais onde tudo se jogava para bem da escola e bem do seu futuro. Esta «estranha forma de vida» que atualmente temos, faz-nos tecer, mais do que teses as suspeitas; sentimentos desgovernados que são autênticos vulcões demolidores de sonhos.  Não sabendo até quando durará, não estamos a construir jardins suspensos à guisa babilónica, mas sonhos suspensos.

Olhando para os noticiários, porque vivemos mais do krónos do que do kairós, com a possibilidade dos comandos de tv fazerem recuar as notícias, mais do que propriamente esperarmos pelos diretos, senti saudades de todo o alfabeto pré-covid: não se noticiavam vacinas, negociatas de testes pcr’s, antigénios ou rápidos; por esta altura falava-se de calor, de incêndios, de destinos turísticos de viagens, de subsídios de férias ou da falta deles, do abandono familiar e dos animais, dos exames e candidaturas a universidades, da baixa do desemprego e dos cuidados a ter no calor das praias…

Olhando para a Igreja não sinto saudades. Ela tem algo que denominamos Tradição (viva aao contrário de estanque), e vive de virtudes intituladas:  Fé, Esperança e Caridade. Choramos os pecados dos homens que a governam, lamentamos a falta de separação com o Estado, a inconsciência do serviço, o rubricismo ateu e o anacrónico, e tantos outros, presentes no nosso ato de contrição. No entanto, a Igreja é do Sonho e não da saudade. Por isso a governa o Espírito Santo, de asas, que faz o que quer.

O privilégio desta saudade deve-se ao facto de estarmos vivos- um dos melhores e únicos privilégios atuais, apesar de nos sentirmos mal situados e em suspenso. Porque a saudade é, normalmente, um exercício de solidão.