Por Carmo Rodeia

O Papa Francisco voltou a fazer , no Vaticano, uma reflexão imperdível, a que poucos órgãos de informação deram destaque, para além dos católicos. Numa receção aos delegados sindicais da Confederação Italiana dos Sindicatos dos Trabalhadores, na passada quarta-feira, alertou para as consequências do desemprego na atual geração de jovens, enquanto os mais velhos têm de trabalhar “demasiado tempo”. E, pediu um novo pacto social.

“É urgente um novo pacto social humano, um novo pacto social pelo trabalho que reduza as horas de trabalho para quem está na última estação laboral, para criar emprego para os jovens que têm o direito-dever de trabalho”, disse.

O Papa deixou críticas a uma economia de mercado que deixa de parte a natureza social da empresa.

“O capitalismo do nosso tempo não entende o valor do sindicato, porque se esqueceu da natureza social da economia, da empresa. Este é um dos maiores pecados”, declarou denunciando a desigualdade salarial que afeta as mulheres e o trabalho infantil.

O Papa considerou “desumano” que os pais não tenham tempo para estar com os seus filhos, por causa do trabalho, e pediu “outra cultura”, como noticiou a Agência Ecclesia.

Depois da economia que mata; das inúmeras mensagens aos líderes mundiais sobre a necessidade de uma economia social de mercado, o Papa Francisco apela agora a uma economia da comunhão, duas palavras que a cultura actual mantém bem separadas e muitas vezes, mesmo, em oposição.

Esta economia de comunhão não é senão um enorme “Não” à idolatria do dinheiro, assente num novo pacto social que proteja quem se reforma e, simultaneamente, quem procura novo emprego.

Sobre o dinheiro Francisco ressaltou que a economia de comunhão é também comunhão dos lucros, expressão da comunhão da vida, “pois não se pode compreender o novo Reino trazido por Jesus, se não se é livre dos ídolos, dos quais o dinheiro é um dos mais poderosos”, refere o Papa.

O dinheiro é importante sobretudo quando não existe e dele dependem a comida, a escola, o futuro dos filhos, mas é ídolo quando se torna fim do próprio agir, observou o Papa, acrescentando que o capitalismo, que procura no lucro a sua única finalidade, arrisca-se a tornar-se uma estrutura idolátrica, uma forma de culto à “deusa fortuna”.

É necessário, então, procurar mudar as regras do jogo do sistema económico-social, e para tal não basta imitar o bom samaritano do Evangelho: é necessário imitar, também, o Pai misericordioso da parábola do filho pródigo e esperar em casa os `filhos´- os empregados e colaboradores-  que erraram.

“Um empresário da comunhão é chamado a fazer tudo, para que  mesmo aqueles que cometeram erros e saíram de casa, possam esperar um emprego e um salário digno”.

Na carta ao diretor da FAO, em outubro de 2015, o Papa Francisco perguntava em jeito de reflexão se ainda seria possível uma sociedade na qual os recursos não ficassem apenas com uns poucos quando a esmagadora maioria, menos favorecida, é obrigada a receber migalhas.

O papa, na linha do que é a Doutrina Social da Igreja, procura dar atenção à experiência concreta dos Homens; não faz um apelo apenas à nossa inteligência, mas também à nossa afetividade, aos nossos sentidos e ao nosso coração, possibilitando assim verdadeiras decisões e ações individuais e coletivas.

O assunto foi amplamente abordado quer na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium quer na Encíclica Laudato Si e recordo apenas uma frase : “Pequenos mas fortes no amor de Deus, como São Francisco de Assis, todos nós, cristãos, somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos” (EG, 216).

Qual é a parte que não entendem os nossos políticos e dirigentes com responsabilidades públicas?

Não ouviram, não leram, não entenderam … sempre têm a desculpa: não foi notícia, não aconteceu; logo não existe.