Pelo Pe Teodoro Medeiros*

Arte que visa intervervir na vida da sociedade. Não é propriamente um conceito novo (quem sabe? As pinturas rupestres seriam denúncia pela classe dos artistas da pouca cultura dos caçadores primitivos?). Não é óbvio. Mas hoje são-no muitos objetos estéticos, bens de consumo mais ou menos institucionalizados. É o cinema das grandes causas, moralizante e bem intencionado, mas sem brilho.

Até muitos dos filmes feitos sobre Jesus caiem nessa armadilha; passíveis de apenas uma leitura, uma interpretação suave… para onde foi a intervenção, a inquietação? O maior revolucionário da história parece que é, às vezes, reduzido a um caso de fama e sucesso internacional. A linguagem do cinema tem várias formas, é verdade, mas, muitas vezes, basta ver 20 segundos de um filme (quem não pensou em ângulos ou na expressão dos atores está a contar a história?) para sentir a “asfixia” que nos espera.

Em paralelo, o género documentário parece ter limites incontornáveis; seja Gandhi ou Bob Dylan, tem de se começar pelo ano de nascença e acabar na herança cultural, o legado. Como fugir? Um ou outro flashback? Entrevistas com quem os acompanhou (a) de perto? Quem viu um viu todos. Uma nota para o “Shoah” de Lanzmann: é sobre o holocausto mas quase não mostra imagens dos campos e as entrevistas de sobreviventes são a razão da sua força.

“O Ato de Matar”. Um realizador americano dirigiu-se à Indonésia para dar a conhecer o massacre de cerca de um milhão de civis às mãos da ditadura militar (que, dizem muitos artigos sobre o filme, foi posta no poder por um golpe de estado em que o governo americano terá culpas). Que filme fazer então? Entrevistar familiares das vítimas? Recolher provas de algum género? Desvendar o nome dos antigos criminosos?

Oppenheimer apontou ao olho do furacão e acelerou a fundo, pode dizer-se. Afinal, muitos dos generais encarregados dessa limpeza estavam ainda no poder. Outros seguem ainda a mesma ideologia. Porque não ir diretamente falar com eles, dizer-lhes que queria fazer um filme sobre os eventos de 1965? Entrevistar os protagonistas reais, como testemunhas diretas e, como se compreende, os únicos sobreviventes dessas operações? E pedir-lhes que explicassem as suas acções… aquelas em que levavam alguém para um passeio sem retorno.

A propaganda estava montada de forma a que, popularmente, se acreditasse que “os comunistas” eram violentos e representavam todo o tipo de perigo para o Estado: a versão indonésia de “os comunistas comem criancinhas”. Os militares assassinos eram heróis venerados (situação que subsiste). É, aliás, esse protagonismo público, confirmado nas escolas do regime, o artifício responsável pelo sucesso deste engodo; abordados pelo realizador e sua equipa, estes homens sentiram-se profundamente honrados. E chegam mesmo a revelar que se inspiravam nos filmes de acção que viam.

É vê-los então. A maior parte do tempo, testemunham contra si mesmos, admitindo abertamente a crueldade extrema das matanças. Reconstituem as suas façanhas e explicam cada detalhe com eficiência; realizam o sonho antigo de serem estrelas de cinema. Pouco a pouco, porém, pequenas perguntas são feitas e as respostas são radiográficas. E os últimos minutos confirmam: “O Ato de Matar” não é um filme normal (graças a Deus!).

O filme começa e demora um pouco até que se alcance quem são estes homens que falam alegremente no ecrã. Entusiasmados e simpáticos, podiam ser nossos amigos.

 

  • O Padre Teodoro Medeiros assina a coluna de opinião 35 mm, a partir de Roma