Por Carmo Rodeia


Hoje e nos próximos domingos, o Evangelho apresenta-nos as parábolas de Jesus.

A parábola é uma comparação através da qual se explica uma determinada mensagem. Não foi inventada por Jesus; de resto era uma figura muito utilizada pelos povos do Médio Oriente porque sem ser impositiva levava as pessoas a compreender, através de coisas concretas, a mensagem que se pretendia transmitir.

Esta semana ouvimos a parábola do semeador, que nos apela a uma radiografia interior sobre como escutamos a palavra de Deus, como a pomos em prática, como nos transformamos através dela e ajudamos a transformar os outros para que eles também, tal como nós todos os batizados, discípulos de Jesus, sejam novos semeadores.

A semente e o semeador não são para aqui chamados. Todos os que temos fé e somos cristãos sabemos que ambos são de boa qualidade. O que temos de avaliar é a terra em que essa semente é lançada, porque é da qualidade dessa terra que depende o fruto. E a primeira terra que temos de avaliar e, se calhar lavrar, é a nossa; somos nós.

Jesus não faz aceção de terras e lança a semente em todas as direções como que a experimentar. Ele, melhor que ninguém, sabe que nem todas as sementes crescerão à mesma velocidade; que é precisa paciência e que mesmo que a semente frutifique é preciso o compromisso de ir sempre podando o fruto para que ela não esmoreça e não morra.

Este tempo de férias, para além da folia própria do verão, também deve ser um convite à nossa capacidade para podar algumas coisas, com outra atitude e com outra disponibilidade perante a vida. O verão, talvez porque signifique uma quebra na rotina quotidiana, é porventura a época do ano em que temos mais disponibilidade (física e mental) para resolvermos as coisas: porque os dias são maiores; porque são mais luminosos e porque são dias de encontro, com quem regressa; com quem não vemos há muito tempo ou com quem nos encontramos todos os dias mas para quem não temos sempre tempo. E, às vezes, para encontrarmos novos caminhos basta olharmos para as coisas com outro olhar. Por isso, ao contrário daquilo que a geografia e o clima recomendam- esta não é definitivamente época de sementeiras- julgo que é tempo de lavrarmos a terra, retirando o que sobrou do ano anterior, colhendo as ervas menos boas e dando novo alento para que a semente medre de novo. Os cuidados são, por isso, redobrados e exigentes.

O verão é o tempo certo para a `conversão´, “um lugar onde as horas estendem, para cada um, uma sombra mais leve” como refere José Tolentino Mendonça.

Há uma pergunta que muitas pessoas colocam e eu própria me coloco que é a de quanto tempo precisamos rezar. Sobretudo quando temos outras coisas para fazer. No verão a questão é fácil de  resolver porque os dias são maiores. E, mesmo sabendo que a nossa conversão à oração está longe de ser fácil, na maioria das vezes não porque não a entendamos necessária mas  porque somos demasiado vulneráveis e achamos que Deus nos julga a toda a hora que falarmos com Ele, podíamos aproveitar esta altura para escutar, e sobretudo escutar melhor, a palavra de Deus, rezando mais e melhor.

Quando ouviram os passos de Deus no Jardim, Adão e Eva esconderam-se. Também nós achamos que nos podemos esconder Dele. Amamo-lo e adoramo-lo mas há uma reserva que queremos guardar para nós. E no verão até achamos que podemos também adotar uma relação mais light, e frequentemente, ousamos dar férias a Deus. A nossa sorte é que Ele nunca se cansa de nós. Mesmo quando a terra não é muito boa há sempre a esperança de que a semente medre. Mesmo quando não o escutamos ou nos desviamos do caminho que nos vai ajudando a construir. Mesmo no verão…