Por Carmo Rodeia

A semana passada numa das homílias na Casa de Santa Marta, o Papa Francisco falou da esperança, “virtude que move o coração a buscar um futuro melhor”, mesmo no meio das amarguras presentes da vida. E precisou que “o primeiro inimigo da esperança é a ilusão da saciedade, de achar que já se possui tudo, que não é necessário desejar mais coisa alguma”.

“Ao contrário -indicou o Sucessor de Pedro- a esperança é a virtude dos humildes, daqueles que não se contentam com as garantias alcançadas, mas estão sempre buscando um bem mais precioso, capaz de mudar este mundo. Por isso, o pior obstáculo para a esperança é o coração vazio”.

É definitivamente um perigo que nos ameaça a todos e nos deixa completamente vazios. Não tenho dúvida de que Deus nos criou para a felicidade e por isso estou certa que Ele não há de deixar que nos roubem a esperança.

Vem isto a propósito das eleições autárquicas e dos resultados que delas decorreram. Leituras à parte, de cada vez que somos chamados a exercer este nosso direito de escolher quem nos governa, seja na junta de Freguesia, seja na Câmara ou noutro patamar mais global, somos instados a fazer opções. Que não têm de ser sempre iguais mas que devem ser conscientes e, sobretudo, esclarecidas.

Durante mais de 20 anos cobri, enquanto jornalista, a atualidade política e acompanhei inúmeras campanhas eleitorais. Tenho para mim que poucas pessoas conhecem os programas dos partidos e acabam por votar por uma questão de identidade ou de simpatia. Sobretudo em eleições locais como as que vivemos este domingo. Ou porque conhecemos o candidato e somos amigos; ou porque somos família ou, por uma questão identitária, porque os que são como nós votam em A ou B e nós também seguimos o mesmo rumo. Este voto sendo legítimo, como todos os votos, pressupõe uma escolha que é tudo menos racional e acaba por des-responsabilizar os partidos que mantém uma autonomia impressionante face aos eleitores. Um autonomia que os protege de serem penalizados. Quem não conhece os programas eleitorais ou as medidas concretas anunciadas não pode pedir contas sobre o seu incumprimento. E por isso vemos, tantas vezes, os mesmos a serem eleitos para os mesmos lugares sem que tenham feito alguma coisa para o merecer.

A semana que passou, a revista Visão entrevistou Jason Brennan, o autor do livro “Contra a Democracia”, no qual recupera uma velha ideia de Winston Churchill que a Democracia é o pior de todos os sistemas à exceção de todos os outros. No essencial, este politólogo tem procurado estudar o comportamento dos cidadãos na altura de votar e, inspirado no futebol e em filmes de encher a plateia como Star Trek e o Senhor dos Anéis, chega à conclusão que existem três tipos de votantes: os hobbits que não ligam à politica e que acham que é indiferente votar ou não votar; os hooligans que sabem tudo sobre o seu partido mas que não vêem mais nada para além dele e os vulcanos que processam a informação de forma racional e que seriam, por isso, os grandes exemplos de votantes.

Receio que nestas eleições tenha havido de tudo. Mas, quando olho para determinados resultados não posso deixar de desconfiar e pensar que estamos bem acompanhados de hooligans.

Regresso ao Papa Francisco. Ainda cardeal de Buenos Aires, contava uma piada: “Uma pessoa aparecia a correr a pedir socorro. Quem o perseguia? Um assassino? Um ladrão? Não…, um medíocre com poder. É verdade: pobres dos que estão sob o domínio do medíocre. Quando um medíocre acredita e lhe dão um pouco de poder, pobres dos que estão sob a sua alçada. O meu pai dizia-me sempre: cumprimenta as pessoas quando fores subindo, porque irás encontrá-las quando vieres a descer. Não duvides”.

É preciso reabilitar a política. O poder tem a sua legitimação última no serviço do bem comum. O resto,  é amiguismo…