Por Carmo Rodeia

Não tenho por hábito avaliar pessoas publicamente. E muito menos escrever sobre elas. Nem bem nem mal. Prefiro comentar ideias e propostas ao invés de cair na fulanização. Mas, desta vez, não resisti. Até porque a tarefa é fácil e consensual. E, pensei: se o cito tantas vezes porque não elogiá-lo publicamente, juntando-me a um imenso coro, de vozes mais afinadas que a minha.

No domingo estava a sair da Missa e recebi uma mensagem que me alertou para a grande notícia do dia: alguém me escreveu dizendo “Já tem um amigo cardeal”. Corri para a internet e vi aquilo que todos há muito suspeitávamos: o Padre Tolentino, D. José Tolentino Mendonça, tinha sido nomeado cardeal pelo Papa Francisco. Confirmada a notícia, e partilhada nas redes sociais, respondi a esse meu amigo: “É verdade, estou muito contente. Não tenho um mas dois amigos cardeais”.

Não é que isso seja importante ou me traga qualquer vantagem pessoal. O motivo do meu contentamento prende-se com o reconhecimento do trabalho e do valor de cada um, o que nem sempre acontece e, por outro lado, o contributo que podem dar ao Papa Francisco na reforma que está a trilhar quer do ponto de vista da organização interna quer do ponto de vista pastoral. E isso, sim, importa.

Entrevistei o ainda Padre Tolentino dois dias antes de ser nomeado bispo, em Fátima, no final do Simpósio Teológico pastoral de 2018, onde fez uma brilhante intervenção sobre o santuário como lugar de acolhimento e de cura da fragilidade. Soube da sua nomeação como arcebispo e responsável pelo Arquivo e Biblioteca Apostólica da mesma forma e nas mesmas circunstâncias em que soube da nomeação cardinalícia. Também nessa altura fiquei contente e orgulhosa, como crente e como portuguesa. Afinal, um dos nossos tinha o seu trabalho reconhecido. E logo um dos meus poetas de eleição, uma espécie de “guru”, como esse meu amigo lhe chama.

Lembro-me do Pacheco Pereira, a propósito de uma homenagem a José Medeiros Ferreira, outro madeirense embora tivesse vivido toda a vida nos Açores, ter dito acerca dos açorianos que ou eram peixes de águas profundas ou homens de grande espiritualidade. Na altura, que vivia nos Açores, entendi isso quase como uma condição da insularidade, que nunca se deixa tentar pela insulação. Não sei se por causa do mar, do basalto  ou da geografia, que vale outro tanto como a história, nas palavras do grande Nemésio, mas a verdade é que conheci, e conheço, gente superior nessas ilhas. Marcada por uma profundidade e uma dimensão muito acima do normal.

D. José Tolentino Mendonça, natural da Madeira é, de facto, um homem com uma craveira intelectual extraordinária, com uma dimensão de fé incomparável. Quando nos escuta, escuta mesmo e dele surgem sempre palavras, que podem nem ser muitas (quase nunca são!), mas que vão diretas ao coração, à alma. Senti isso no momento da entrevista como já senti isso noutras alturas em conversas com ele. Como sinto isso em cada pedaço de prosa ou poesia que escreve. O facto de ser um homem da cultura dá-lhe a capacidade de dialogar com o mundo, de estar no mundo e de discernir sobre os caminhos que o mundo pode seguir, que é ímpar. É um homem de Deus e da cultura. E a igreja precisa disso. Um poeta olha sempre o mundo com outros olhos e é exatamente disso que a Igreja Católica necessita, particularmente neste mundo de hoje.

O Papa Francisco fez da bondade, da simplicidade e da misericórdia concretas os alicerces do seu pontificado. A escolha de nomes como D. José Tolentino Mendonça ou D. António Marto confirmam a opção por quem serve e dispensa o poder. Quase consigo imaginar a Cúria romana de boca aberta de espanto por estas escolhas, como outras que o Papa tem feito certamente e que me dispenso de comentar.

No final do retiro da Quaresma de 2018, pregado por D. José Tolentino, o Papa Francisco agradeceu-lhe a falta de medo e de rigidez das suas reflexões e, sobretudo por ter mostrado aos cardeais e bispos da Cúria que a “Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que voa e trabalha fora” porque o “espírito de Deus é para todos”.

Não admira por isso que esta escolha, tal como a de há um ano atrás, seja um sinal de esperança dos novos tempos da Igreja Católica. Quem é que não sonha com isso e não se alegra com o desafio?!…