Uma psicóloga e uma socióloga refletiram sobre os desafios da familia

Arrancaram segunda feira à noite os Encontros de Reflexão da Ouvidoria da Praia sobre a família que juntaram num primeiro painel a socióloga Piedade Lalanda e a psicóloga Leticia Leal.

Ambas falaram sobre a família e os desafios que se lhe colocam tendo como pano de fundo duas premissas: hoje não se pode falar apenas num determinado tipo de família e esta constrói-se a partir de uma relação que tem por base o respeito, a tolerância, a confiança e, sobretudo, o amor.

“Hoje perante a diversidade de modelos de família existentes é preciso que cada um de nós defina o que é essencial para consolidar a sua família como espaço de partilha, de respeito e de encontro” disse Piedade Lalanda, professora da Universidade dos Açores

“A relação familiar compromete as pessoas mas não anula a individualidade de cada elemento da família” afirmou Piedade Lalanda lembrando que é neste espaço, enquanto comunidade de amor, que se aprende a respeitar a diferença “permitindo que todos tenham voz”.

Depois de apresentar algumas estatísticas sobre as taxas de nupcialidade, e de natalidade nos Açores, ambas “em decréscimo acentuado”, com a região a liderar as taxas de divórcio e de relações reconstruídas, a professora universitária frisou que o mais importante é que a família só se constrói se “houver amor, confiança, cumplicidade, sentido de escuta, respeito e tempo”.

“Enquanto não arrumarmos as nossas relações definindo o que queremos e o que estamos dispostos a dar nunca chegaremos a ser família” e, consequentemente “nunca seremos comunidade” sublinhou a investigadora destacando que hoje é “mais fácil as pessoas juntarem-se em torno de uma questão material do que por laços e afetos”, mesmo que por vezes “existam enganos e se cometam erros”.

Por isso, o grande desafio da família é, segundo Piedade Lalanda, a capacidade de diálogo, com um trabalho diário das relações, que vise a construção de laços, assentes no amor.

“É na relação que a pessoa se descobre a partir do outro. Este é o efeito direto do amor” disse Piedade Lalanda .

Letícia Leal, psicóloga, partiu da exortação sobre a família- A Alegria no Amor-, para afirmar que se trata da “ instituição mais bonita pois é na família que aprendemos a amar e a ser amados”.

A convivência “exige muito: respeito, amor, presença e compreensão. E se nós não tivermos bem connosco próprios não vamos conseguir estar bem com os outros” esclareceu ainda a psicóloga que procurou abordar as relações nas famílias com filhos adolescentes ou as famílias que experimentam a saída de casa por parte dos filhos, que gera sempre sentimentos de perda e fragilidade.

Para a psicóloga, infelizmente vive-se uma cultura individualista, onde o descarte é muito frequente e a inconsistência das conexões relacionais leva a que as pessoas se questionem sobre a entrega a outro.

Letícia Leal falou ainda do papel da família na educação para a fé, sobretudo junto de adolescentes, o que exije uma necessidade de reorientação das próprias famílias que muitas vezes têm de apostar em “processos negociais”.

Durante três dias a ouvidoria da Praia da Vitória está a  discutir a problemática da família no tempo atual, juntando neste “tempo favorável” abordagens multidisciplinares sobre esta célula da sociedade.

“Em tempo quaresmal, somos impelidos a ir ao deserto a fim de encontrar as luzes que procuramos para a realidade que por vezes nos amedronta, mas também nos faz avançar, acreditar e nos fortalece na esperança”, afirmou o ouvidor Pe. Emanuel Valadão Vaz na sessão de abertura.

“A razão de termos escolhido este tema tem a ver com as múltiplas situações que assolam a família e que nem sempre temos oportunidade de refletir, dialogar, de fazer caminhos juntos sobre o testemunho e sobre as feridas existentes em contexto familiar”, prosseguiu o sacerdote em jeito de desafio..

Citando o Papa Francisco, o Pe. Emanuel Valadão convidou os mais de centena e meia de participantes presentes a serem “ uma porta aberta para quem quer entrar e sermos, igualmente, uma porta de saída para ir ao encontro de quem precisa de ser encontrado”, acompanhando com “atenção e solicitude, os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e extraviado, dando-lhes de novo confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou de uma tocha acesa no meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota ou estão no meio da tempestade. Não esqueçamos que, muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha”.

Por isso, prosseguiu “estes três dias de encontro pretendem também interpelar-nos a todos sobre o que podemos converter no olhar, no iluminar e no agir sobre a família”.

“Queremos ser um Ramo Vivo da Igreja nesta parcela do povo de Deus”, concluiu.

“É necessário sermos audazes, exorcizarmos os nossos egos para avançar em direcção à unidade na diversidade” desafiou ainda.

Além de Piedade Lalanda e de Letícia Leal usarão da palavra ainda os padres José Júlio Rocha, esta terça feira à noite e Bento Domingues, quarta feira.

As sessões no Centro Pastoral das Fontinhas começam às 20h00 e têm entrada livre.

(Com Francisco Machado).