Vaticano destaca ano marcado pelo «flagelo dos abusos» e ataques internos

O Papa Francisco assinala esta quarta-feira o sexto aniversário da sua eleição pontifícia, um momento visto como de viragem, em busca de respostas para os problemas sociais e da Igreja que foram identificados desde 2013.

Andrea Tornielli, diretor editorial da Secretaria para a Comunicação do Vaticano, assinala, numa nota divulgada pela Santa Sé, que os últimos 12 meses, em particular, ficaram marcados “pelo flagelo dos abusos e pelo sofrimento de alguns ataques internos”, protagonizados inclusivamente por cardeais.

“Um olhar ao ano que acaba de passar não pode ignorar o ressurgimento do escândalo dos abusos e das divisões internas que levaram o ex-núncio Carlo Maria Viganò, em agosto de 2018, precisamente quando Francisco celebrava a Eucaristia com milhares de famílias em Dublin, repropondo a beleza e o valor do matrimónio cristão, a pedir publicamente a renúncia do Papa por causa da gestão do caso McCarrick”, recorda o jornalista italiano.

O antigo arcebispo de Washington, acusado de abusos sexuais, viria a deixar o Colégio Cardinalício e a ser demitido do estado clerical, por “uso impróprio da confissão e violações do Sexto Mandamento do Decálogo com menores e adultos, com a agravante de abuso de poder”.

Há menos de um mês, o Papa convocou uma inédita cimeira mundial, com presidentes de conferências episcopais e responsáveis de institutos religiosos, sobre a proteção de menores na Igreja e a crise dos abusos sexuais.

“Para o Papa Francisco, o fundamental é a conversão dos corações que nasce ao ouvir as vítimas”, sustenta o porta-voz do Vaticano, Alessandro Gisotti.

Francisco apelou a uma luta “total” e global perante crise à espera de respostas que superem resistências e receios dos responsáveis católicos; no final de fevereiro, o pontífice proibiu o cardeal George Pell, ex-prefeito da Secretaria para a Economia da Santa Sé, do exercício público do ministério, após este ter sido condenado em primeira instância por um tribunal australiano da acusação de abusos sexuais contra menores.

Este é um tema decisivo para a avaliação do pontificado, sobretudo no que diz respeito à sua aposta no envolvimento dos episcopados locais em processos efetivos de decisão; o Papa procura implicar toda a Igreja com a realização sucessiva de Sínodos (o quarto será já em outubro, sobre a Amazónia) e um olhar global sobre os desafios da humanidade.

Face ao crescimento de nacionalismos e populismos, Francisco tem proposto uma Igreja de “portas abertas”, que compara a um “hospital de campanha”, principalmente preocupada com as periferias sociais, económicas e existenciais.

O primeiro Papa sul-americano tem deixado gestos simbólicos como as viagens a Lampedusa e Lesbos, a abertura da Porta Santa do Jubileu da Misericórdia em Bangui (República Centro-Africana), as passagens por prisões e campos de refugiados, a Missa junto à fronteira México-EUA, a aproximação a China com o acordo assinado em 2018 ou a primeira viagem de um pontífice à Península Arábica.

Aos católicos, Francisco tem recordado convicção de que Deus ama todos, sem distinção, propondo uma “revolução da ternura”, na certeza de que a divisão não supera qualquer dificuldade.

O atual pontificado foi retratado num filme de Wim Wenders, ‘Pope Francis – A Man of His Word’, no qual se resumem os “principais desafios globais de hoje” a que Francisco quer ajudar a responder: a morte, a justiça social, a imigração, a ecologia, as desigualdades, o materialismo ou o papel da família.

A obra apresenta Papa nalgumas das viagens internacionais, incluindo a passagem pelo Santuário de Fátima, em 2017, onde canonizou os pastorinhos Francisco e Jacinta Marto; Portugal espera um regresso de Francisco, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude de 2022, que se vai realizar em Lisboa.

O Papa tem proposto uma mudança do paradigma económico e financeiro internacional, como tinha deixado bem vincado na exortação ‘Evangelii Gaudium’ ou no seu discurso em Estrasburgo, perante o Parlamento Europeu, em defesa da democracia face ao poder dos mercados.

Com a encíclica ‘Laudato si’, Francisco abriu as fronteiras do seu discurso e colocou a Igreja Católica na liderança do movimento mundial para a defesa do ambiente, congregando à sua volta apoios das mais diversas proveniências.

O Papa tem estado próximo dos mais pobres e excluídos, na defesa de uma globalização mais plural, que respeite a identidade de todos e os excluídos, um discurso marcado pela vivência no Sul do mundo.

O primeiro pontífice da América Latina tem mostrado preocupação com a situação do Velho Continente, desejando uma ‘refundação da Europa’, particularmente necessária perante as crises de refugiados e do terrorismo internacional.

O Papa tem repetido mensagens em favor da paz nas várias regiões do mundo afetadas por conflitos, assumindo a defesa dos cristãos no Médio Oriente e criticando quem justifica ataques terroristas com as suas convicções religiosas.

Internamente, a reforma da Cúria Romana, com a ajuda de um Conselho de Cardeais dos cinco continentes, já levou à criação de dois dicastérios (Leigos, a Família e a Vida; para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral) e de novas medidas para a administração económico-financeira da Santa Sé e do Estado do Vaticano.

O cardeal Jorge Mario Bergoglio foi eleito como sucessor de Bento XVI a 13 de março de 2013, após a renúncia do agora Papa emérito, assumindo o inédito nome de Francisco; é também o primeiro Papa jesuíta na história da Igreja.

 

 

 

 

Jorge Mario Bergoglio nasceu em Buenos Aires, capital da Argentina, a 17 de dezembro de 1936; filho de emigrantes italianos, trabalhou como técnico químico antes de se decidir pelo sacerdócio, no seio da Companhia de Jesus, licenciando-se em filosofia e teologia.

Ordenado padre a 13 de dezembro de 1969, foi responsável pela formação dos novos jesuítas e depois provincial dos religiosos na Argentina (1973-1979).

 

João Paulo II nomeou-o bispo auxiliar de Buenos Aires em 1992 e foi ordenado bispo a 27 de junho desse ano, assumindo a liderança da diocese a 28 de fevereiro de 1998, após a morte do cardeal Antonio Quarracino.

O primaz da Argentina seria criado cardeal pelo Papa polaco a 21 de fevereiro de 2001, ano no qual foi relator da 10ª assembleia do Sínodo dos Bispos.

Tem como lema ‘Miserando atque eligendo’, frase que evoca uma passagem do Evangelho segundo São Mateus: “Olhou-o com misericórdia e escolheu-o”.

(Com Ecclessia)