Por Renato Moura

O cuidado permitiu ao Padre José Alves Trigueiro uma vida saudável, mas depois de uma doença, felizmente curta, chegou a sua vez de partir para o Pai.

Aspirou pelo seu 84.º aniversário, que coincidiu com a 5.ª feira santa. Uma idade considerável, mas sempre resoluto e com uma lucidez impressionante.

Tive a felicidade de ser seu aluno no então Externato da Imaculada Conceição, em Santa Cruz das Flores, onde ele foi Director, um estabelecimento indispensável para muitos prosseguirem estudos para além do ensino primário. Então acabado de ordenar, foi coadjutor na Matriz de Santa Cruz, debaixo duma disciplina terrivelmente dura do então pároco e ouvidor. Não apenas a idade de então, mas principalmente a sua forma de ser e estar, permitiram uma relação franca e afável com os alunos e a formação de amizades mútuas para a vida.

Muito jovem órfão de pai, habituou-se a viver com muitas dificuldades. Não se queixava, antes se honrava da sua condição e só recentemente me confidenciou, sem amargura, mas como exemplo de vida, que nos primeiros anos de sacerdócio ia às lapas com frequência, para o almoço da família. Foi pároco e professor no Pico e na Terceira.

Dispensou a comodidade de se reformar e disponibilizou-se para paroquiar na freguesia onde nasceu, a Fazenda das Flores, com um papel extraordinária nas obras de restauração da sua igreja. Não obstante a idade, colaborava, sempre que solicitado, nas tarefas religiosas em todas as paróquias. Suprindo ausências de párocos, corria a celebrar, eucaristia após eucaristia; como então fiz a justiça de lhe dizer: se todo o clero fosse assim disponível, a Igreja seria muito melhor! Por ocasião de óbitos, de iniciativa própria deslocava-se a qualquer ponto da ilha para concelebrar em tantas das missas de corpo presente.

Não procurava o brilhantismo nas homilias, mas a eficácia da comunicação. Dava exemplo de vida e transmitia a alegria de ser cristão. Respeitou e conviveu com a natureza, que eternizou em fotografia.

Distinguiu-se pela permanente humildade, respeitabilidade e amabilidade; um professor informal sempre disposto a partilhar o que sabia. Era um cultor da alegria e não perdia uma única oportunidade de fraternizar, fosse com uma anedota ou uma adivinha conservadas pela sua memória inigualável.

Deus quis que o Padre Trigueiro, no Domingo 28 de abril, já celebrasse com Ele o 2.º Domingo de Páscoa e brevemente o sexagenário da sua ordenação. Atingiu a alegria que pregou.

Nós humanamente choramos a partida de um homem bom e um grande Padre.