Proteção de menores, europeias e situação do país dominam preocupações dos bispos portugueses

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) alertou para o “crescente nacionalismo autoritário” que se verifica um pouco por toda a Europa, na carta pastoral divulgada hoje em Fátima.
No documento, a CEP salienta que se está a assistir a “movimentos de desagregação da União Europeia, como o ‘Brexit’ e o crescente nacionalismo autoritário ou populista, acompanhados da generalização do discurso xenófobo”.
“Assistimos mesmo ao regresso de ideologias neonazis e antissemitas. O islamofobismo é simultaneamente origem e consequência de novos movimentos de cariz terrorista. A intolerância alimenta-se do ódio, e o ódio alimenta-se do medo, num ciclo vicioso difícil de romper. As próprias comunidades cristãs e os seus templos têm sido vítimas de atentados”, afirma.
Aos jornalistas, o presidente da CEP e cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, disse que “os nacionalismos estão por aí outra vez, geralmente muito mal explicados, todos eles ‘pretextuais’, fazem da história um pretexto para justificar opções presentes e, portanto, é preciso ter cuidado”.
Manuel Clemente referiu que o “projeto europeu, com todas as deficiências que ainda tem, já proporcionou a grande parte da Europa cerca de oito décadas de paz”.
“É um valor demasiado alto para o pormos em causa por qualquer nacionalismo de pretexto. Gostarmos da nossa nação, das nossas tradições é bom, mas é para partilhar, não para contrapor”, considerou.
A degradação dos serviços públicos, nomeadamente a educação e a saúde, a quebra de investimento, os salários e o trabalho precários, as dificuldades no aceso à habitação de jovens casais e o “recurso à ‘cunha’” são outros dos pontos que mereceram a atenção dos bispos portugueses.
Na carta, a CEP recordou que, apesar da diminuição do desemprego em Portugal, “cerca de 10% dos trabalhadores com emprego não consegue o salário justo que permita ao seu agregado familiar viver dignamente, assegurando a educação dos filhos, o acesso à cultura e à formação, a alimentação, a habitação e o lazer”.
“A precariedade do trabalho, a que se junta a conciliação entre trabalho e vida familiar, com horários mais ajustados às conveniências da produção do que às da família. Uma paternidade e maternidade responsáveis supõem um mínimo de estabilidade laboral. Não se esqueça que a pessoa humana está inserida numa família e tem naturalmente projetos familiares com exigências próprias”, refere ainda o documento.
Manuel Clemente acrescentou que a laboração contínua só deveria ser levada a efeito “em situações em que não há alternativa”.
Considerando que é urgente uma “pedagogia ativa” para travar a fuga ao fisco, os bispos entendem que a “erradicação da corrupção é possível”.
“Para isso, não podemos desvalorizar as consequências sociais dos nossos comportamentos no recurso à ‘cunha’, à obtenção de vantagens que nos são indevidas e à retribuição de pequenos favores”, apontam.
Manuel Clemente salientou que é preciso “uma sociedade onde há lugar para todos e onde ninguém se encoste a ninguém”.
O presidente da CEP defendeu de novo o apoio do Estado ao ensino não estatal. “Tem de se conjugar o princípio da solidariedade, numa sociedade não pode ficar ninguém de fora, com o princípio da subsidiariedade. Por que é que a família terá de pagar duas vezes para o ensino? Por que é que esses projetos, que são comprovadamente úteis, não hão de ser apoiados?”
“Quando o Estado financia escolas não estatais não está a desviar fundos públicos para fins privados, está a permitir que a liberdade de escolher essas escolas não fique reservada às famílias de maiores recursos”, lê-se ainda na carta.

(Com Lusa)