Por Renato Moura

A Igreja somos todos, com carismas, deveres e direitos. Os pastores têm especiais qualificações e missões. A Exortação Pós-sinodal “Amoris Laetitia” dirige-se a uns e outros.

Procura-se continuar a reflexão da semana passada, sobre o cap. VIII – Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade.

O Santo Padre estabelece “a Igreja deve acompanhar, com atenção e solicitude, os seus filhos mais frágeis” e lembra que “duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e reintegrar”, sendo que o caminho da Igreja “é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração”.

O Papa ensina que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as “consequências ou efeitos duma norma não devem ser necessariamente sempre os mesmos” e também “não devem ser sempre os mesmos na aplicação da disciplina sacramental”.

Consta explicitamente da Exortação que “um juízo negativo sobre uma situação objectiva não implica um juízo sobre a imputabilidade ou a culpabilidade da pessoa envolvida” e que “é mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isso não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano”.

Dirigindo-se directamente aos pastores o Papa Francisco afirma que “um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações «irregulares», como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”, acrescenta “por se pensar que tudo seja branco ou preto, às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento e desencorajamos percursos de santificação que dão glória a Deus” e recomenda “o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor”.

Ligando a Exortação ao Ano Santo da Misericórdia, o nosso Papa esclarece que ”nada pode ser desprovido de misericórdia” e às vezes “agimos como controladores da graça e não como facilitadores”, que a Igreja “é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa”. Reconheceu que “pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho” e considerou “inadequada qualquer concepção teológica que, em última instância, ponha em dúvida a própria omnipotência de Deus e, especialmente, a sua misericórdia”.

O Papa Francisco teve o discernimento corajoso de abrir caminho largamente auspicioso. Fica a todos o desafio de o percorrer com proveito.