Santos Populares: a festa sai à rua, mas o desafio é entrar na vida dos santos

A noite de Santo António, que se assinala , hoje é o prelúdio de um mês dedicado aos Santos Populares

Foto: Radio Renascença

A força das festas dos Santos Populares reside na capacidade de unir a dimensão profundamente humana da alegria, do convívio e da partilha com a dimensão espiritual da fé e da intercessão dos santos, afirma Monsenhor António Saldanha numa entrevista ao programa de rádio Igreja Açores, que vai para o ar este domingo na RTP Antena 1 Açores e Rádio Clube de Angra e que ficará disponível em podcast aqui no sítio Igreja Açores.

A partir desta noite, com as celebrações de Santo António, milhares de pessoas voltam a sair à rua nos Açores, onde muitas paróquias mantêm viva esta tradição que se prolonga ao longo de junho com São João e São Pedro. Entre marchas, manjericos, arraiais e sardinhadas, a Igreja vê nestas manifestações populares não apenas momentos de festa coletiva, mas também uma oportunidade para reencontrar figuras que marcaram profundamente a história do Cristianismo.

Para o sacerdote, doutorado em História da Igreja, é positivo que o povo continue a trazer os santos para a rua e a pedir a sua intercessão. Contudo, adverte que estas celebrações só preservam o seu verdadeiro significado quando conduzem ao conhecimento da vida e da mensagem de Santo António, São João e São Pedro, homens que fizeram do amor a Jesus Cristo a razão da sua existência e que continuam a ser modelos de fé para os cristãos de hoje.

“São festas de grande alegria, de grande convívio, de grande partilha”, afirma. Contudo, o historiador da Igreja considera que existe um desafio importante: não deixar que Santo António, São João e São Pedro se transformem apenas em nomes associados a festas populares.

“Sem um encontro com a Eucaristia, sem um encontro com a Palavra de Deus, sem um encontro com o Evangelho, perdemos uma parte importante destas festas”, sublinha.

“Se não aprofundamos a sua mensagem, continuam a ser personagens que dão nome às festas, mas que são ilustres desconhecidos.”

Foto: Igreja Açores/AMS

Para Monsenhor António Saldanha, os três santos têm algo em comum: antes de serem figuras populares, foram homens profundamente apaixonados por Cristo.

“São três enamorados de Jesus, da mensagem cristã. São três homens que viveram os valores do Evangelho de uma forma radical e intensa”, afirma.

“São três estradas que desembocam depois na mesma meta, que é Jesus Cristo”, enfatiza.

É precisamente por isso que considera positiva a tradição de os invocar e pedir a sua ajuda.

“As pessoas chamam-nos para as suas casas, para as suas vidas, para as circunstâncias em que vivem, procurando neles não apenas modelos, mas intercessores, consoladores e sinais de esperança e isso é muito bonito”, sobretudo num tempo marcado pelo isolamento e pela fragmentação social. Por isso, acredita que estas festas continuam a desempenhar uma função agregadora.

“Convocam as pessoas para a rua, chamam as pessoas a sair de casa, a sair dos seus pequenos mundos”, refere.

“Podem ser e continuam a ser uma oportunidade para que as pessoas voltem a encontrar-se e a viver mais uma vida em comunidade e isso também é um valor cristão”, refere.

Para Monsenhor António Saldanha, pároco das paróquias da Matriz da Horta e da Conceição e antigo membro do Dicastério para as Causas dos Santos, o fenómeno dos Santos Populares tem raízes muito antigas.

“A Igreja batizou alguns rituais pagãos, não os anulou, não os suprimiu, mas deu-lhes um sentido cristão”, explica, referindo-se às antigas celebrações ligadas ao solstício de verão, às colheitas, à fertilidade e à abundância da terra, que estão na origem destas festas do mês de junho.

O que ainda têm para ensinar?

Mais do que recorrer aos santos por tradição, Monsenhor António Saldanha desafia os cristãos a conhecerem aquilo que cada um deles pode ensinar hoje.

Sobre Santo António, celebrado a 13 de junho e reconhecido como Doutor da Igreja, destaca uma característica frequentemente esquecida.

“Talvez um aspeto menos conhecido dele, mas muito importante, seja a sede de conhecer Deus.” Recorda que o santo português “aprofundou muito a mensagem cristã e propô-la de forma eloquente através dos seus escritos e da sua pregação”. Por isso, acrescenta, “podemos escolher esta virtude que é o desejo de ser um conhecedor de Deus o mais profundamente possível”.

Santo António foi pregador e professor de Teologia, é doutor da Igreja, tem fama de milagres, é erudito e popular, sendo reconhecido como um expoente máximo das virtudes, da sabedoria, mas também do amor popular. Em Lisboa e em Pádua conta-se, que ele apoiou tanto os pobres, até com leis para reverter o destino dos prisioneiros e terá ajudado raparigas com o dote para casar, falando a financiadores. E daí vêm tantas lendas…

De São João, diz Monsenhor António Saldanha, sobressai a capacidade de transmitir aquilo que viveu junto de Cristo.

“Podemos tirar este desejo de comunicar o que se conhece de Deus”, afirma.

“Foi aquele que traduziu em palavras o que viveu diretamente com Jesus” adianta ainda.

Já São Pedro continua a ser uma figura especialmente atual pela sua humanidade.

“O amor que sentimos por Cristo é maior do que o nosso pecado, do que as nossas contradições e as nossas pequenas traições”, resume.

“O amor a Cristo pode sempre triunfar sobre as nossas incoerências e fragilidades, como aconteceu com São Pedro.”

As festas dos Santos Populares têm raízes muito anteriores ao Cristianismo. Já os povos pagãos celebravam nesta época a chegada do verão e a fertilidade da terra, esperando colheitas abundantes e prosperidade para as comunidades dependentes da agricultura. A Igreja acabaria por cristianizar muitas destas tradições, associando-as às figuras de Santo António, São João e São Pedro, sem eliminar a forte componente festiva que as caracterizava.

Várias das tradições que ainda hoje marcam os festejos de junho remontam a esse passado ancestral. As fogueiras e os balões estavam ligados ao culto da luz e do solstício de verão, simbolizando a vitória da luz sobre a escuridão e o desejo de um tempo fértil e abundante. Também o alho-porro, mais tarde substituído pelos populares martelinhos de São João, tinha originalmente um simbolismo associado à fertilidade.

É neste encontro entre antigas celebrações da natureza e a devoção cristã que reside a singularidade dos Santos Populares, onde a alegria da festa continua a conviver com a memória e a intercessão dos santos que a Igreja propõe como modelos de vida cristã.

A entrevista a Monsenhor António Saldanha fica disponível em podcast aqui no Sítio Igreja Açores e nas plataformas habituais Youtube, Facebook, Spotify e Itunes.

Scroll to Top