Na reação à mensagem para o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o bispo de Angra afirma que o Papa desafia a comunicação “verdadeira, edificadora de comunhão e ao serviço da pessoa”

O Papa Francisco apresentou hoje a redescoberta do sentido de comunidade como forma de superar os desafios levantados pelo recurso crescente às redes sociais e internet.

“Não basta multiplicar as conexões para ver crescer também a compreensão recíproca”, sublinha, na sua mensagem para 53.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, divulgada pela Santa Sé, que tem como tema ‘Das comunidades de redes sociais à comunidade humana’,

Francisco defende a necessidade de reencontrar a “verdadeira identidade comunitária”, na consciência da responsabilidade que todos têm, uns para com os outros.

Na reação, o bispo de Angra, que é o presidente da Comissão Episcopal da Cultura, dos Bens Culturais e das Comunicações Sociais, aplaude a Mensagem que “revista de orientação para a nossa comunicação social” e alerta para os perigos do individualismo que resultam das redes sociais.

“São muitos os desvios e perigos que integram a comunicação nas redes sociais, relevante é o individualismo na sociedade promovido por uma comunicação mal entendida, mas igualmente se manifestam as potencialidades e virtualidades que revestem a comunicação digital desde que seja orientada pelos objetivos autenticamente humanos e potencie os laços mais profundos entre as pessoas” escreve o bispo numa Mensagem enviada ao Igreja Açores.

D.João Lavrador lembra que Francisco não é o primeiro Papa a escrever sobre as redes sociais, mas sublinha a linguagem simples utilizada pelo Santo Padre, que “lança fortes desafios a uma comunicação que seja verdadeira, edificadora de comunhão e se coloque ao serviço da pessoa; interpela os comunicadores a estabelecerem a relação entre a comunicação na rede e a comunidade, sublinhando o valor da pessoa que exige a relação interpessoal; mais ainda, questiona o testemunho cristão como fundamento de toda a comunicação porque se baseia em Deus Trindade, comunicação divina, que dá sentido e orienta toda a comunicação entre as pessoa”.

“Voltado para os cristãos convida-os a assumirem um papel de relevância no modo de conceber a pessoa como diálogo e promotora de comunhão e a testemunhar a verdade no domínio da comunicação social” esclarece D. João Lavrador.

O texto da mensagem do Papa Francisco realça que a identidade humana se funda sobre “a comunhão e a alteridade” e que, para os cristãos, há um olhar de inclusão, ensinado por Jesus, que leva a “descobrir a alteridade de modo novo, ou seja, como parte integrante e condição da relação e da proximidade”.

“A verdade revela-se na comunhão; pelo contrário, a mentira é recusa egoísta de reconhecer a própria pertença ao corpo; é recusa de se dar aos outros, perdendo assim o único caminho para se reencontrar a si mesmo”, observa o pontífice.

Para o Papa, é urgente deixar de ver as pessoas como “potenciais concorrentes”, promovendo antes a “capacidade de compreensão e comunicação” entre as pessoas.

A mensagem fala de uma “nostalgia de viver em comunhão, de pertencer a uma comunidade” no coração de todos e apela a “investir nas relações” humanas.

A nossa vida cresce em humanidade passando do caráter individual ao caráter pessoal; o caminho autêntico de humanização vai do indivíduo que sente o outro como rival para a pessoa que nele reconhece um companheiro de viagem”.

O Papa sugere uma passagem do “like” ao “amen”, sustentando que “o uso das redes sociais é complementar do encontro em carne e osso, vivido através do corpo, do coração, dos olhos, da contemplação, da respiração do outro”.

“Abrir o caminho ao diálogo, ao encontro, ao sorriso, ao carinho… Esta é a rede que queremos: uma rede feita, não para capturar, mas para libertar, para preservar uma comunhão de pessoas livres. A própria Igreja é uma rede tecida pela Comunhão Eucarística, onde a união não se baseia nos gostos [like], mas na verdade, no ‘amen’ com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros”, conclui.

Francisco tem uma conta no Twitter, ‘@Pontifex’, em várias línguas, e está presente no Instagram com o perfil ‘@Franciscus’, com milhões de seguidores nestas redes sociais.

O Dia Mundial das Comunicações Sociais foi a única celebração do género estabelecida pelo Concílio Vaticano II, no decreto ‘Inter Mirifica’, em 1963; assinala-se no domingo antes do Pentecostes (2 de junho, em 2019).

A mensagem do Papa é tradicionalmente publicada por ocasião da festa litúrgica de São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas, no dia 24 de janeiro.

Entretanto, e na sequência desta mensagem, o Papa anunciou que o Vaticano vai ser sede de um Observatório internacional sobre cyberbullying, com o objetivo de “circunscrever o fenómeno” que afeta, sobretudo, as novas gerações.

“As estatísticas relativas aos mais jovens revelam que um em cada quatro adolescentes está envolvido em episódios de cyberbullying”, adverte Francisco.

Já na última assembleia do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2018, que o Papa dedicou às novas gerações, tinha lançado um alerta sobre o “lado obscuro da rede”, com novas formas de violência, como o cyberbullying.

O Papa assinala agora que a internet se tem mostrado “um dos locais mais expostos à desinformação e à distorção” de factos e relações interpessoais.

“A comunidade das redes sociais não é, automaticamente, sinónimo de comunidade. No melhor dos casos, tais comunidades conseguem dar provas de coesão e solidariedade, mas frequentemente permanecem agregados apenas indivíduos que se reconhecem em torno de interesses ou argumentos caracterizados por vínculos frágeis”, pode ler-se.

Francisco convida a superar uma lógica de “individualismo desenfreado” e “narcisismo”, que exclui quem pensa de forma diferente e promove o preconceito “étnico, sexual, religioso”, entre outros, “acabando às vezes por fomentar espirais de ódio”.

Os adolescentes estão mais expostos à ilusão de que as redes sociais possam satisfazê-los completamente a nível relacional, até se chegar ao perigoso fenómeno dos jovens ‘eremitas sociais’, que correm o risco de se alhear totalmente da sociedade. Esta dinâmica dramática manifesta uma grave rutura no tecido relacional da sociedade, uma laceração que não podemos ignorar”.