
O Papa Leão XIV exigiu hoje a criação de vias legais e seguras para as migrações, alertando a Europa contra a transformação do oceano num cemitério.
“Este drama deve tornar-se um exame de consciência: para as nações de origem, que devem criar condições de paz, justiça e desenvolvimento; para as nações de trânsito, chamadas a proteger e a não deixar os mais fracos nas mãos de redes criminosas”, denunciou Leão XIV, no porto de Arguineguín, primeira paragem da sua visita ao arquipélago das Canárias.
“A Europa não pode proclamar a dignidade humana e habituar-se a que o Mediterrâneo e o Atlântico sejam cemitérios sem lápides; a comunidade internacional é chamada a uma cooperação eficaz e perseverante”, acrescentou, motivando um aplauso dos presentes.
O Papa chegou esta manhã à ilha da Gran Canária, terceira etapa da sua viagem apostólica a Espanha, que já passou por Madrid e Barcelona, desde 6 de junho.
“Não podemos habituar-nos a contar mortos. A dignidade humana não tem passaporte nem perde valor ao atravessar uma fronteira”, apontou.
O encontro começou com testemunhos de migrantes e de quem os assiste, que relataram as dificuldades encontradas por quem tentar chegar à Europa.
“Também hoje existem monstros que espreitam estes mares: máfias que traficam com o desespero, traficantes que escravizam mulheres e crianças e a indiferença de muitos que permitem que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento”, declarou.
O Papa condenou o lucro obtido através do desespero humano, falando em “indústrias da morte”.
“Não acreditem naqueles que prometem paraísos fáceis em troca do vosso corpo, do vosso dinheiro, do vosso silêncio ou da vossa liberdade”, acrescentou, dirigindo-se diretamente aos migrantes.
O pontífice exigiu uma responsabilização das instâncias internacionais, preconizando que “cada barco que chega não traz apenas migrantes”.
“Que mundo construímos, se tantos irmãos têm de arriscar a morte para procurar a vida?”, apontou.
Leão XIV sustentou que a dignidade humana “exige vias legais e seguras, resgate e assistência, cooperação real contra os traficantes, proteção efetiva às vítimas, processos sérios de acolhimento e integração, e políticas que permitam a cada pessoa viver com dignidade na sua própria terra”.
“A Igreja não pode ignorar estas águas nem qualquer lugar onde a fome, a sede, a violência, o medo ou o exílio continuem a ferir a dignidade humana. Os discípulos de Jesus não podem considerar alheio o clamor daqueles que gritam na escuridão da noite.”
O Papa falou do “direito de não ter de migrar”, convidando as comunidades católicas a assumir uma atitude proativa e permanente no acolhimento dos migrantes, que “não pode ser algo secundário nem delegado apenas a alguns voluntários”.
“Que a história não tenha de nos acusar de ter transformado a dor dos que sofrem numa paisagem habitual das nossas costas”, concluiu.
Este encontro com as entidades de acolhimento marcou o arranque da visita, a primeira de um Papa ao arquipélago das Canárias.
“Não basta gerir as chegadas, distribuir números, reforçar as fronteiras ou lamentar as mortes quando estas já ocorreram”, advertiu o pontífice.
Leão XIV homenageou as vítimas das rotas atlânticas com uma coroa de flores, guardando um minuto de silêncio, e abençoou uma cruz de madeira fabricada a partir dos restos de um barco naufragado.
Antes da intervenção do Papa, sobreviventes de tráfico humano e equipas de resgate relataram alguns dos cenários de morte e exploração nas rotas migratórias do Atlântico.
“Durante estes anos, juntamente com a minha equipa, resgatei mais de vinte mil pessoas do mar, um número que dói e que não se esquece”, testemunhou o oficial Tito Villarmea, capitão de uma embarcação de Salvamento Marítimo.
O interveniente partilhou a angústia quotidiana das equipas técnicas perante a incerteza e a escuridão absoluta das operações em alto mar, apelando a uma resposta concertada.
“Oxalá nunca mais tivéssemos de resgatar ninguém. Trabalhemos como sociedade para que este drama diminua e para construir um mundo mais justo”, sublinhou Villarmea.
O primeiro encontro do Papa no arquipélago das Canárias incluiu a leitura do testemunho de uma cidadã nigeriana, que não pôde comparecer pessoalmente no recinto portuário por motivos de segurança.
“Não saí do meu país porque quisesse”, garantiu a jovem Blessing.
A cidadã africana assumiu que a fuga representou a única alternativa à fome, tendo enfrentado o risco da travessia marítima após testemunhar a morte de outros deslocados.
“E quando chegou o momento de cruzar o mar, vi como as pessoas que saíram antes de nós nesse mesmo dia morreram afogadas”, denunciou a sobrevivente.
A jovem relatou a violência extrema exercida pelas “máfias” internacionais.
“Ao chegar a Espanha tiraram-me o meu bebé para me obrigarem a prostituir-me”, relatou a vítima.
O resgate policial da rede de exploração sexual permitiu à mulher recuperar a guarda da criança aos 11 meses de idade.
“Desde então, com a ajuda da Igreja através das assistentes sociais, a vida começou a mudar”, descreveu Blessing.
O impacto social do acolhimento inicial foi enquadrado pelas colaboradoras locais das estruturas assistenciais católicas, que atuam na primeira linha do arquipélago.
“Aprendi que cada pessoa que chega não é um problema a resolver, mas uma história a abraçar e acompanhar”, frisou María Reyes Alemán Cruz, voluntária da Cáritas.
Uma empresária de origem latino-americana radicada na ilha testemunhou o seu percurso de integração económica pessoal após ter enfrentado situações de sem-abrigo no passado.
“Também quero dar esperança a quem está a passar por momentos difíceis, especialmente àqueles que tiveram de deixar o seu país e a sua família. É possível seguir em frente com trabalho, respeito e gratidão para com o lugar que nos abre as portas”, defendeu María Fernanda López Meza, desejando que “os trâmites e procedimentos para quem chega sejam cada vez mais humanos e ágeis”.
O acolhimento institucional e a contextualização pastoral do evento couberam ao bispo diocesano.
“Este cais, ao qual muitos chamaram porto da vergonha, tem sido testemunha da chegada de milhares de pessoas que fogem da fome, da guerra e do desespero”, apontou D. José Mazuelos Pérez.
“A indiferença não pode ser a resposta, nunca”, acrescentou.
O responsável católico destacou a perigosidade da “Rota Atlântica”, uma das mais mortíferas do mundo, com travessias que superam os 1600 quilómetros a partir de países como o Senegal, a Mauritânia, a Gâmbia, o Mali e Marrocos.
O Papa conclui a sua viagem de sete dias à Espanha esta sexta-feira, na ilha de Tenerife, onde visita um centro de acolhimento especializado e presidirá a uma celebração litúrgica terminal.
(Com Ecclesia)


