Francisco encerra programa em Havana com apelo à «amizade social» contra a guerra

O Papa encerrou este domingo o segundo dia de visita a Cuba com um encontro que reuniu milhares de jovens em Havana, que desafiou a construir a “amizade social” e “procurar o bem comum”, acima de quaisquer diferenças.

“O mundo é destruído pela inimizade e a maior inimizade é a guerra: hoje em dia vemos que o mundo está a ser destruído por causa da guerra”, disse, numa intervenção improvisada diante da multidão que enfrentava a chuva.

“Sejam capazes de criar a amizade social”, acrescentou.

Francisco pediu aos responsáveis pelos conflitos em curso que procurem negociar para não matar mais pessoas.

A intervenção recordou as crianças que são mortas “antes de nascer” e os idosos que são descartados “porque já não produzem”.

“Esta cultura do descarte está a fazer-nos mal a todos, tira-nos a esperança”, lamentou.

O Papa desafiou por isso os jovens cubanos a ter “corações abertos, mentes abertas”, que não se fechem em “ideologias” nem rejeitem o diálogo por causa de diferenças.

“Há algo superior a nós, a grandeza do nosso povo, da nossa pátria. É a doce esperança da pátria à qual temos de chegar”, acrescentou.

Francisco falou depois dos problemas que os jovens desempregados têm de enfrentar, em particular na Europa.

 

“Um povo que não se preocupa em dar trabalho aos jovens não tem futuro”, alertou.

O Papa decidiu deixar de lado o discurso que tinha preparado depois de ouvir o testemunho de um jovem cubano, no início deste encontro no Centro Cultural Padre Félix Varela, junto à Catedral de Havana.

“O que nos une é a esperança num futuro de mudanças profundas, onde Cuba seja um lar para todos os seus filhos, pensem como pensem e estejam onde estiverem”, disse Leonardo Fernández, filho de um membro do Partido Comunista e de mãe católica.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, confirmou depois em conferência de imprensa que a diplomacia da Santa Sé contactou alguns elementos da oposição cubana, convidando-os a estar presentes em atos públicos da viagem, mas precisou que não “estava previsto qualquer encontro” com o Papa.

Segundo o diretor da sala de imprensa da Santa Sé, mais de 200 mil pessoas participaram na Missa desta manhã na Praça da Revolução, mais do que nas anteriores visitas de São João Paulo II (1998) e Bento XVI (2012).

Francisco encerrou o seu programa oficial em Havana, partindo esta segunda-feira para as cidades de Holguín e Santiago de Cuba, onde vai permanecer até terça-feira, antes de rumar aos Estados Unidos da América.

Pelo meio, ficou um encontro com o Presidente de Cuba, Raúl Castro.

Além desta reunião, encontraram-se no mesmo local os responsáveis pelas diplomacias da Santa Sé e Cuba, com a presença do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, e do vice-presidente do Conselho de Estado e de Ministros cubano, Miguel Díaz-Canel Bermúdez.

Francisco ofereceu a Raúl Castro um mosaico da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba, e recebeu do presidente um grande crucifixo da artista plástica Alexis Leyva Machado (Kcho)

 

A comitiva do Papa nesta viagem inclui cerca de 30 pessoas, incluindo o braço direito do secretário de Estado, D. Paul Richard Gallagher, secretário do Vaticano para as relações com os Estados.

A Santa Sé explica que esta presença reforça a importância dada à “política externa” nesta décima viagem do Papa ao estrangeiro.

Os Estados Unidos da América e Cuba anunciaram em dezembro de 2014 a decisão de restabelecer as relações diplomáticas e económicas entre os dois países, que tinham sido cortadas em 1961, pouco depois de chegada ao poder de Fidel Castro.

A terceira visita de um Papa a Cuba, após São João Paulo II (1998) e Bento XVI (2012), marca o 80.º aniversário das relações diplomáticas entre a Santa Sé e Havana.

CR/Ecclesia/Lusa