Por Carmo Rodeia

O Papa Francisco desafiou os jovens cubanos a serem capazes de construir “amizade social”, procurando “fazer o bem comum”, pondo de parte inimizades, “cuja maior de todas é a guerra”. A intervenção e o apelo do Papa recordou as crianças que são mortas antes de nascerem e os idosos que são descartados porque já não produzem. E concluiu: “esta cultura do descarte está a fazer-nos mal a todos e tira-nos a esperança”.

O discurso era dirigido aos jovens, para lembrar que um país que não investe na criação de condições de vida e emprego para os seus jovens não tem futuro, mas o alcance era muito para além daquela plateia.

Como foram outras intervenções a denunciar a violência que é levantar muros e barreiras para impedir um lugar de paz, ou rejeitar quem foge à guerra ou contribuir para o aumento do fosso entre aqueles que desperdiçam o supérfluo e os que nada têm para satisfazer necessidades básicas.

Sistemática e continuamente, sempre a partir do Evangelho, o Papa Francisco desassossega-nos, como se pegasse em cada um de nós e nos beliscasse dizendo: tu levanta-te e faz-te à vida, à boa maneira do texto de S. Marcos que recordou a 6 de setembro na Praça de São Pedro: “Deus não está fechado em si mesmo, mas abre-se e põe-se em comunicação com a humanidade. Na sua misericórdia imensa, supera o abismo da diferença infinita entre Ele e nós, e vem ao nosso encontro”.

É a este encontro, sempre de olhos postos nos que sobram, que devemos partir.

O ideal evangélico não é uma abstração, tal como as afirmações do Papa não são produção literária, de quem se limita a dizer umas coisas incómodas, só para aparecer nas notícias.

Das migrações ao desemprego; da inflação à austeridade; das famílias desestruturadas às famílias exploradas; da riqueza de alguns e da pobreza de muitos, nada disto se pode resumir a números. Eles são importantes e infelizmente pouco animadores. Alguns até pecam por defeito mas se olharmos para o que está por trás- as pessoas- qualquer número se tornará excessivo. Mesmo quando não bata certo com a realidade.

Vivemos um tempo de campanha eleitoral. A que se seguirá um tempo de escolhas. Começou a guerra dos números, centrada nos cortes da Segurança Social, em nome da sua sustentabilidade. Num país que tem mais de três milhões de reformados e um dos invernos demográficos mais severos da Europa.

Na nota pastoral a propósito do próximo ato eleitoral, D. António de Sousa Braga, lembrou aos cristãos que os tempos “são demasiado exigentes para que confiemos as nossas escolhas aos outros”.

São Tomas de Aquino dizia que a maior das virtudes humanas era a política, a busca de justiça para todos. Sei que é difícil compreender este pensamento à luz dos nossos dias. Olhando à volta, dificilmente encontraremos alguém disponivel para tornar o mundo como naquela passagem do livro dos Atos dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles. Não havia entre eles indigente algum, pois os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos; e distribuíam-no a cada um segundo a sua necessidade.”

Algum dia isto será possível… para além do tempo e das promessas de uma campanha.