Celebra-se hoje o 2º. Aniversário da eleição do Papa Francisco.

Em tão pouco tempo, desde aquele buona sera (boa noite), com que se apresentou à multidão na varanda de São Pedro, através da simplicidade da sua vida, da coragem com que aborda determinadas questões deveras complicadas, da defesa que tem feito dos direitos dos pobres, marginalizados e excluídos, da ternura com que se aproxima dos doentes e das crianças, da denúncia que tem feito das injustiças que proliferam como cogumelos em terrenos húmidos, da proximidade que estabelece com as pessoas que com ele contactam, etc., etc., o Papa Francisco tornou-se numa figura incontornável.

Estas atitudes não aparecem agora como meteoritos. Elas surgem na sequência de toda uma vida preocupada em recolocar a Igreja no mundo e retirar do Evangelho os ensinamentos e instrumentos para lidar com os desafios dos nossos dias.

Nas suas catequeses, não se cansa de insistir na necessidade de nos abrirmos aos outros, sobretudo aos mais desprotegidos. E no documento de referência obrigatória, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, escreve:- “o grande risco do mundo atual com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos interesses individuais, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem”.

Como cardeal, arcebispo de Buenos Aires, em 2007 declarava: – “A injusta distribuição dos bens da terra persiste criando uma situação de pecado social que brada aos céus e limita a possibilidade de uma vida mais plena para tantos dos nossos irmãos”. E em setembro de 2009 afirmava: – “a pobreza extrema e as estruturas económicas injustas que causam grandes desigualdades são violações dos direitos humanos”. Aliás toda a sua vida foi um constante testemunho de simplicidade e espírito de pobreza. Sendo já cardeal continuava a cozinhar algumas das suas refeições, a andar de metro e de autocarro, a comprar os jornais no seu habitual vendedor a quem telefonou depois de ser eleito Papa. Quando da sua investidura cardinalícia convenceu centenas de argentinos a não irem a Roma e pediu que dessem o dinheiro das despesas de tal viagem aos mais necessitados.

A atenção que dedica às pessoas que vivem à margem da sociedade leva-o a afirmar, depois da sua eleição, que “o poder do Papa deve ser o serviço, especialmente aos mais pobres, mais débeis e mais pequenos. Desejaria uma igreja de proximidade, vizinha da humanidade e do seu sofrimento. Ah! Como eu gostaria de uma igreja pobre mais dedicada aos pobres”.

O modo como apareceu na varanda da igreja de São Pedro, com uma simples batina branca e a cruz de prata que tinha trazido da Argentina, e as primeiras palavras que dirige à multidão são de uma simplicidade impressionantes. –“irmãos e irmãs boa noite. Vós sabeis que o dever do conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo. Eis-me aqui”.

No dia seguinte, a um jornalista que lhe pergunta o porquê da escolha de Francisco ele respondeu. – “logo que os votos chegaram aos dois terços, o arcebispo de São Paulo disse-me: – não te esqueças dos pobres. Depois, enquanto o escrutínio prosseguia pensei nas guerras e assim surgiu o homem da paz, o homem que protege e ama a criação, com a qual temos uma relação menos boa- S. Francisco de Assis”.

O Papa Francisco tem hoje grandes admiradores, não só entre os católicos mas também entre pessoas dos mais diversos quadrantes religiosos, políticos e sociais. Aqui há tempos, o insuspeito Daniel Oliveira, no programa televisivo “o eixo do mal”, não teve rebuço em eleger o Papa Francisco como a personalidade do ano..

De entre os muitos gestos de grande significado na vida do Papa Francisco gostaria de realçar a sua viagem a Lampedusa, ocorrida pouco tempo depois do início do seu pontificado, na sequência de mais um naufrágio de um barco com emigrantes que tentavam fugir a dificuldades de diversa ordem e procuravam na Europa alguma segurança e condições menos penosas para as suas vidas, “para chorar os mortos que ninguém chora”, lamentou.

Esta viagem fez com que todos os olhares do mundo de voltassem para ele. Nesta ocasião afirmou:-“Perdemos o sentido da responsabilidade fraterna”. Aproveitou ainda esta oportunidade para vergastar a globalização da indiferença.

Nas visitas à Coreia do Sul e às Filipinas, o avião que o transportava atravessou a China o que revela bem uma atitude de grande consideração por parte das autoridades chinesas. Este gesto poderá ser interpretado como alguma abertura para uma diferente relação com a igreja católica naquele país. Assim, pensando na difícil situação dos católicos chineses que necessitam do apoio do Papa será fácil compreender que este não tenha recebido o Dalai Lama.

Será que as muitas e diversificadas mensagens que o papa Francisco tem difundido por todo o mundo terão provocado algum impacto visível na nossa diocese?

Infelizmente, na minha modesta opinião, o Papa Francisco, apesar de todos os seus esforços, pouco tem conseguido fazer no que diz respeito à mudança de mentalidades e atitudes bem pouco evangélicas, mesmo junto de alguns daqueles que têm por dever não se resignar com tanta injustiça, com tanta violação dos direitos dos pobres, com tanta falta de amor ao próximo, com tanta falta de espírito de pobreza, com certa ostentação que ofende milhares, que também são gente, e que vivendo nas periferias têm dificuldade em afirmar-se com a dignidade inerente à sua natureza de pessoas humanas.

Neste tempo difícil que atravessamos todos temos o dever indeclinável, como pede insistentemente o Papa Francisco, de lutar, por todos os meios ao nosso alcance, por uma sociedade mais justa e mais humana.

O mundo tem sede de homens bons tout court e é por isso que o Papa Francisco é tão estimado.

 

Monsenhor Weber Machado