Pelo padre José Júlio Rocha

Fahim é um miúdo que nasceu no Bangladesh, um lugar que não nos diz nada porque, de tão distante, parece pertencer a outra galáxia. E, no entanto, no Bangladesh vivem seres humanos como nós, com o mesmo código genético, a mesma humanidade, a mesma fome e as mesmas esperanças, apesar da absolutamente inútil cor da pele ser diferente.

O Bangladesh é uma terra de violência, pobreza e repressão e quem lá nasce pobre e desprotegido não tem hipótese de sobreviver com dignidade, e, às vezes, nem de sobreviver sequer. Aos nove anos, Fahim era já um fenómeno sobredotado a jogar xadrez nas ruas com adultos especialistas na modalidade. Como quase todos nós, Fahim tinha uma família, pai, mãe, uma irmã mais velha, um irmão de um ano. Partiram a cabeça ao pai porque ele não era do partido que mandava. Só por isso. Perseguido e odiado, fugiu com o filho Fahim para a Índia, onde, à custa de subornos e fugas, conseguiu chegar a França, deixando a mulher e os outros filhos para trás, na esperança de os poder reencontrar naquela terra prometida.

Dormiram seis meses na rua, sem documentos nem direitos, até que a Cruz Vermelha os acolheu num lar, enquanto o pai de Fahim vendia rosas e miniaturas da Torre Eiffel pelas ruas de Paris. Fahim foi acolhido numa escola e, pela sua habilidade no xadrez, foi aceite num curso desta modalidade, onde até ganhou ao seu mestre. Era realmente um fenómeno. As crianças do curso gostavam dele, admiravam-no. Os adultos desconfiavam de uma criança bengali, escura, de outra religião, etnia, pensamento, vestuário, olhar.

Numa rusga, a polícia perseguiu o pai, algemou-o, levou-o para o calabouço, espancou-o, enquanto ele berrava pelo filho, que, entretanto, era acolhido pelos pais das crianças que o admiravam. Fahim soube, pelo seu mestre, que o pai estava preso por ser ilegal, vender ilegalidades, prestes a ser deportado para o Bangladesh, onde, certamente, seria aniquilado.

A única hipótese de Fahim para salvar o pai era dar tudo no xadrez e vencer o campeonato de frança de sub 12. E o filho lutou pelo seu pai com todas as forças e ganas, concentrado no jogo e na vida, perante adversários mais velhos e mais sábios, contra tudo e contra todos, contra as normas da prova, que não admitia jogadores em situação irregular. Foi o mestre de Fahim que lembrou ao comité do xadrez que os melhores jogadores do mundo, desde Kasparov a Karpov, foram refugiados e vítimas de repressão. Fahim foi aceite na competição. Ganhou a tudo e todos e o governo francês, para aceitar a vitória do fenómeno, aceitou a sua família, e a mãe e os outros

irmãos foram acolhidos em França como refugiados de guerra. Ainda hoje, nove anos depois, esperam a cidadania francesa.

Quando um filho de onze anos salva um pai e toda a família da desgraça e, provavelmente, da morte, põe em crise uma civilização que entra em pânico porque o filho de uma família, impada de dinheiro, faz uma birra colossal porque os pais decidem não lhe comprar o telemóvel de última geração; porque o filho de quinze anos abandona a casa porque amuou com uma repreensão, um castigo, o dinheiro que o pai não lhe deu para espatifar com amigos, álcool e drogas. Em que é que nós, ocidentais e parrançados de dinheiro, somos melhores do que os outros? Quais são os valores da família que queremos preservar?

O pai de Fahim continua a vender flores e miniaturas da Torre Eiffel e tem ouvido, constantemente, pela cara fora, frases como “vai para a tua terra”, “indiano nojento”, “muçulmano sujo”. É esta Europa de matriz judaico-cristã que vai renunciando aos valores do acolhimento, do respeito pelo outro, da fraternidade, da proteção aos mais desprotegidos, que se julga culturalmente superior a outras culturas do mundo. Se renunciamos aos valores mais humanos, que superioridade temos senão aquela do dinheiro que mantém as nossas casas limpinhas e os nossos frigoríficos cheios?

O fenómeno do Parque dos Príncipes (aquele jogo de futebol interrompido aos quinze minutos, em que, presumivelmente, o quarto árbitro terá dito ao primeiro “expulsa este negro”), ainda vai dar que falar. Não tenho opinião sobre isto porque não sei os contornos nem as intenções que levaram o homem a dizer seja o que for. Mas revolta-me o imundo burburinho que se gerou nas redes sociais, que podem ser execráveis ninhos de ódio. Vi, por exemplo, um “post” que dizia: «qual é a diferença entre dizer “expulsa este preto” e dizer “expulsa este branco?”» Faz toda a diferença. É uma diferença brutalmente histórica de ódio, escravatura, segregação, esmagamento, morte, repressão, em nome, só em nome, do vil dinheiro. Esmagámos povos inteiros em nome desse demónio e chamamo-nos cristãos! E agora queremos preservar a nossa casa, o nosso comodismo, não raro construído sobre os alicerces da destruição daqueles que invadimos.

Claro que não temos que pagar pelos erros do passado. Mas também não temos de continuar a cometê-los.

Fahim é só mais um nome. Um nome que poderá ser inscrito entre os que dignificam a humanidade independentemente da cor, género, condição sexual, situação económica, história ou geográfica.

O terrorismo é um crime hediondo que me revolta as entranhas. As migrações em massa e os refugiados preocupam-me abundantemente. O ódio racial nada resolve, agrava tudo.

Todos nós conhecemos um líder europeu que quis erradicar do seu país todos os problemas e chagas sociais para criar uma nação limpa, purificada, onde todos pudessem viver felizes, sem o incómodo dos parasitas, de dentro e de fora. Chamava-se Hitler. Deu no que deu.

 

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.