Por Carmo Rodeia

O título deste Entrelinhas pode não ser o mais feliz, admito. Até pode mesmo encerrar alguma contradição mas a verdade é que não me ocorrem melhores palavras para abordar uma vez mais o pontificado do Papa Francisco que tem este mês um verdadeiro tira-teimas, para os ainda pouco confiantes, no alcance e eficácia das decisões deste sucessor de Pedro e sobretudo nas virtudes das suas posições relativamente ao mundo de hoje, sem ter beliscado uma nesga aqueles que são os dogmas centrais do magistério (ao contrário das insinuações que têm sido ´fakemente´ desenvolvidas pelos sectores mais conservadores!).

Na visita aos Emirados Árabes Unidos, esta semana, Francisco voltou a surpreender, emprestando a sua vontade para escrever uma nova página da história das relações entre as religiões, confirmando que somos irmãos, mesmo sendo diferentes.

No documento assinado pelos Bispo de Roma e pelo Grande Imam de Al-Azhar rejeita-se firmemente qualquer justificação para a violência cometida em nome de Deus e são feitas declarações importantes e vinculativas sobre o Islão e certas interpretações do mesmo. As palavras relativas ao respeito pelos fiéis de diferentes religiões, à condenação de toda e qualquer discriminação, à necessidade de proteger todos os locais de culto e ao direito à liberdade religiosa, bem como ao reconhecimento dos direitos das mulheres, constituem um empenho.

Significativa é também a ênfase de uma das raízes mais profundas do terrorismo niilista, que deriva de interpretações errôneas de textos religiosos, mas também de uma “deterioração da ética, que condiciona a ação internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do senso de responsabilidade”, como se pode ler no documento.

No final do verão do ano passado, a China e o Vaticano assinaram também um acordo importantíssimo, retomando laços interrompidos há 67 anos, desde que os comunistas chegaram ao poder. E embora o acordo trate apenas de assuntos pastorais foi um grande começo porque, pela primeira vez, a China reconheceu a autoridade do Papa. Muitos viram neste acordo um passo ingénuo do Vaticano  porque o que está escrito não impedirá o cada vez mais musculado Estado chinês a prosseguir atentados contra a liberdade religiosa no país, privilegiando, no terreno, a igreja patriótica e perseguindo os católicos fieis a Roma.

A verdade é que nestes dois exemplos, Francisco sublinha que a fé em Deus une e não divide;  aproxima, não obstante a diferença e  afasta da hostilidade e da aversão. Num mundo marcado por tanto ódio, em que os políticos, líderes das grandes nações, são os primeiros a arremessar as pedras do insulto e da desordem, as palavras do Papa Francisco soam a profecia e os seus gestos concretos revelam um enorme pragmatismo.

A Igreja não pode insistir apenas nas questões relacionadas com o aborto, o casamento homossexual e o uso de métodos contracetivos, que são importantíssimas, sem dúvida, mas também não pode deixar de estar atenta ao que a rodeia e hoje a guerra, a xenofobia, o terrorismo, a perseguição, o direito à vida (e o direito a uma vida digna!) são questões que não podem ser ignoradas e que não se podem ser deixadas apenas sob a alçada de programas políticos ou governativos.

Uma das expressões mais felizes deste pontificado foi a comparação da Igreja a um hospital de campanha após uma batalha. Aí cuidam-se as feridas, evita-se a morte e procura-se diminuir o sofrimento. Esta é a grande metáfora do que é ser Igreja: estar no meio dos destroços e tentar salvar vida por vida, sem receitas globais, porque o que acontece na China não será o mesmo que acontece em Abu Dabi, ou noutra qualquer paragem geográfica. A igreja tem de estar no mundo, como nos lembrou São João XXIII.

O mundo está estranho: 1% da população possui 80% da riqueza mundial;  constroem-se muros para proteger os países ricos dos mais pobres; morre-se de fome em várias partes do globo mas o mundo escandaliza-se com a queda das bolsas; os mercados ficam doentes de cada vez que há um espirro em Wall street mas ninguém se comove com os campos de refugiados espalhados pelo globo…

Como o próprio Papa Francisco diria a fé ” não serve para decorar a vida como se fosse um bolo com natas.”

Entre 21 e 23 de fevereiro, o Papa vai reunir-se com  representantes de todas as conferências episcopais do Mundo para abordar a questão dos escândalos sexuais da Igreja, nomeadamente os abusos contra menores e contra religiosas e religiosos. Não tenho dúvidas de que o Papa Francisco tudo fará para que ao assunto seja devidamente aprofundado. É obvio que não vai  conseguir acabar de um dia para o outro com os problemas mas certamente vai emprestar o seu pragmatismo profético a mais este dossiê que tanto tem contribuído para o descrédito da Igreja, ainda que alguns digam que a ação do Papa será pura cosmética para ter uma boa imprensa.

O poder tem esse defeito: está centrado sobre si mesmo. Vê e ocupa-se dos seus interesses e esquece o mundo que o rodeia. Ainda bem que o papa não partilha desta visão e tudo tem feito para a mudar.