Pelo padre José Júlio Rocha

Estamos no princípio do nosso milénio, altura em que a internet começa a tornar-se um instrumento de massas a nível global. Sana é uma jovem bósnia de 27 anos e, apesar da ténue idade, já vive um casamento infeliz. Não vivem mal. Têm uma boa casa e, já nessa altura, cada um tem o seu computador no seu escritório. Já lá ia o tempo da Guerra dos Balcãs e uma certa prosperidade parecia chegar à pequena Bósnia. Adnan é o marido de Sana, 32 anos e, como ela, não está feliz na relação.

Era o tempo das “salas de chat”, um antecedente das redes sociais, onde se podia conversar, em público ou em privado, com quem estivesse em linha. Ainda não havia fotos nem “emojis”. Havia apenas a escrita, fosse sobre o que fosse, desde uma conversa de amigos, passando por conjuras de amantes, disputas futebolísticas ou políticas, até ao simples encontro de desconhecidos, bastas vezes provido de um secreto desejo de um encontro que convidasse a intimidades. Era uma novidade fascinante, naquele tempo em que parecíamos já ter descoberto tudo e, dali para a frente, o progresso estagnaria. Vinte anos mais tarde, e depois de tudo o que a tecnologia veio trazer à vida e ao mundo, até nos apetece rir dessa “enorme” descoberta do “chat”. A cada data que vivemos, temos a sensação de viver o fim da História: que mais o homem poderá fazer? Seremos sempre surpreendidos.

Voltemos a Sana e ao seu mundo bósnio e ainda lacerado da guerra. Decidiu introduzir-se numa “sala de chat” com o “nickname” (todos usavam “nicknames”) de “Sweetie”. Conversa puxa conversa e lá encontrou um rapaz cujas palavras lhe chamaram a atenção. O “nickname” dele impunha-se já por si: “Prince of joy”. Passaram para o “chat” privado. Sana não queria compromissos, apenas divertir-se e conversar, conhecer pessoas simpáticas, sem dados pessoais em cima da mesa. Mas o príncipe da alegria tinha palavras doces. E, sobretudo, a sua situação infeliz no casamento, a esposa que não o compreendia, comoveram o coração de Sana… dores partilhadas. E ela também desabafou. Do casamento, do trabalho, da vida sem rumo aos 27 anos.

Sana já se deitava a sonhar com as últimas palavras do “Prince of Joy”, acordava a pensar nas penúltimas palavras e ansiava pela chegada da noite, depois do silencioso jantar com o marido, para voltar ao “chat” com o príncipe por quem, sem ainda dar por isso, já estava apaixonada. O dia em que o “prince of joy” declarou, com uma doce hesitação na escrita, que sentia uma forte atração por ela, todo o mundo de Sana virou ao contrário. Uma alegria imensa e uma imensa angústia explodiram no seu peito, misturadas, trituradas, e tal maneira dissolvidas que Sana não sabia se estava feliz ou infeliz.

Foi mais forte do que eles. Violentamente mais forte. Marcaram encontro. Uma praça de Sarajevo, onde viviam. Põe-te bela, Sana põe-te bela, que o amor dança contigo! E Sana pôs-se bela. Tão bela que o marido, encostado ao espelho do corredor a ajeitar a gravata de um rosa bonito e a vestir o casaco azul clarinho, ficou de sobrolho levantado, sem lhe perguntar para onde ia. Não havia confiança.

O coração de Sana batia como as ondas do canhão da Nazaré. Apressadamente virou a última esquina e olhou para o monumento no centro da praça, local do encontro. Viu lá um vulto. O coração teve um sobressalto. Já vira aquela gravata rosa e aquele casaco azul clarinho. E era Adnan, o marido. Entrou em pânico: pensou que o marido descobrira tudo. Mas, ao aproximar-se, viu que o marido estava pálido, assustado.

– Que fazes aqui? – perguntou Sana.

– Estou à espera… – parou.

De repente tudo se tornou claro na mente dos dois: Adnan era o “Prince of Joy” que ela amava, Sana era a “Sweetie” por quem ele se apaixonara.

Caro leitor. Façamos aqui uma alternância narrativa, eu e o caro leitor: garanto-lhe que a essência desta história é verdadeira, embora romanceada por mim nalguns pormenores. Agora desafio o leitor: qual foi o resultado deste encontro? Faça uma pausa e pense… 1, 2, 3. Já pensou?

Eis a resposta: divórcio com os dois a acusarem-se mutuamente de traição. Quem é que Sana amava? Se o “Prince of Joy”, por quem se apaixonara era o marido, porquê esse desgosto que quase a levava à cama. Onde estava agora o objeto da sua paixão? Triste a história desta Sana e deste Adnan que amaram simplesmente o nada.

As palavras doces que trocavam pelo “chat” nunca as tinham dito um ao outro, sentiram-se traídos. A traição um ao outro doeu muito… mas com quem se traíram? Que vazio…

Não conheço outro exemplo que me elucide melhor sobre a antinomia real/virtual do que esta história. O avanço medonho das novas tecnologias leva-nos a explorar o mundo virtual como nunca. Chama-se paranóia à confusão entre o real e o virtual. Não estará o mundo a ficar um pouco paranóico?

  • Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio