Por Renato Moura

Morreu o senador americano, republicano, John McCain. Foi prisioneiro de guerra mais de cinco anos, era herói veterano condecorado. Perdeu as eleições à presidência dos Estados Unidos, em 2008, contra Barack Obama. Partiu vítima de cancro no cérebro, aos 81 anos, com elogios de todos os quadrantes; não de Trump.

Tomou a atitude pouco vulgar de deixar escrita uma carta, para ser conhecida, publicamente, após a sua morte. É um documento curto e simples, mas pode ser partilhado com todo o mundo como história de vida e como legado de cidadania e de política. Deveria, por isso, merecer a reflexão dos cidadãos em geral e em especial dos que desempenham funções públicas e políticas.

McCain considerou que foi um privilégio servir, na função militar e na pública, honradamente, ligado às causas da América, que enumera como a liberdade, a igualdade perante a lei, o respeito pela dignidade de todas as pessoas. É admirável a lucidez de resumir, em tão poucas palavras, os princípios essenciais que, seguidos por cada um dos que exercem funções públicas, tornaria os poderes justos, ao contrário do que, com inusitada frequência, vemos acontecer.

“Enfraquecemos a nossa grandeza quando confundimos patriotismo com rivalidades tribais que espalham o ódio, o ressentimento e a violência, pelos quatro cantos do mundo”, deixou escrito o senador. Uma verdade indiscutível que acontece não só entre nações e povos, mas também dentro de cada país ou circunscrição, que McCain traduziu assim: “Discutimos e competimos e por vezes vilipendiamo-nos uns aos outros nos nossos debates acalorados”. É exactamente este um dos erros que vemos cometer reiteradamente na discussão política, frequentemente sem procurar encontrar a parte maior do que poderia unir, para buscar afanosa e ansiosamente o que divide!

Que maravilhoso exemplo, de prática independente e livre, foi o que nos legou aquele senador republicano, que interrompeu um tratamento contra o cancro, para usar o voto contra Donald Trump, também republicano, no sentido de segurar o plano de saúde dos democratas, que alguns dos seus companheiros republicanos queriam anular.

Perante os políticos e outros homens públicos, que raramente têm a humildade de reconhecer os erros, o senador reconhece e lega com simplicidade exaltante: “Tal como a maioria das pessoas, tenho arrependimentos”, e “Cometi erros, mas espero que o meu amor pela América seja ponderado (…)”; E apelou: “Não desesperem perante as dificuldades”.

Pois é, quando se serve com seriedade, morre-se com dignidade.